quarta-feira, dezembro 29, 2004

 

Destaques (o tempo, a massa, a poesia, a morte)

“Come se fosse um soluço do relógio”.
O terramoto na Ásia pode ter atrasado em três microssegundos a rotação da terra. Tudo porque há uma alteração da massa do planeta. O mundo é uma “bailarina rodopiando”, se estica os braços o rodopio atrasa, o contrário se os encolhe. (metáforas de cientistas da NASA)

A crónica de hoje de Eduardo Prado Coelho no Público pede também um destaque. Pode alguém anular-se dentro da nulidade? (Refere-se a Luís Nobre Guedes).
Transcreve um poema do Ruy Belo, que abre outras leituras sobre o “fascínio” do tempo dentro do tempo, o morrermos em nós e nos outros: “Nunca até hoje eu morrera tanto em alguém”.
E. P. C. ironiza mais e finaliza com “a poesia está na rua” para justificar um presidente da Caixa Geral de Depósitos que se demite para assumir o cargo do qual se demitiu, e uma Secretária de Estado das Artes que homologou subsídios pouco antes revogados por si.
(Quanto a mim, este último caso é o mais explicável porque acredito que Teresa Caeiro, sendo sobrinha do poeta Cesariny, terá, pela herança genética, propensão, não digo para o Surrealismo, mas para actos surreais).

Mais doze execuções na China. Deputado de Pequim calcula que a China executa 10 mil pessoas por ano.

e…
“Jovens – Taizé” esgotam stock de Coca-Cola, Fantas e Ketchup do MacDonald’s do Centro Comercial Vasco da Gama.

Acordo de paz entre Dacar e Casamansa.
(Terá alguma coisa a ver com o Barcelona – Dacar? Se sim, para quando um rali Israel – Palestina?)


(das notícias do Público)

 

Valsa dum Homem Carente

Pequena nota ao Norte do Jorge Palma

15 canções prontas a ouvir. A música no PC faz-me apetecer postar aqui qualquer coisa sobre Jorge Palma – o gajo porreiro.

Um disco do Jorge Palma hoje em dia começa a ser quase tão raro como o Benfica ganhar a Super Liga. Daí ser apetecível arranjar o disco, e ficar com saudades do próximo. Este vem com a novidade de ser produzido pelo Mário Barreiros (e há que saber da importância deste músico/produtor no panorama da nova música portuguesa), e com as participações de músicos de que eu gosto muito como o Carlos Bica e Frank Möbus (do Azul), o Flak, etc, há também umas letras do Carlos Tê (destaco a que dá o titulo ao post).

Falei dos que conheço melhor, mas de certeza que há mais referências incontornáveis na lista dos colaboradores. De resto, é um disco para se ouvir à noite, na última fase da preparação do jantar, saboreando depois as entradas, a sopa de cenoura, as primeiras garfadas do segundo prato, aquele vinho. E alguns amigos.

Depois há duas “faixas escondidas com o rabo de fora”. A primeira é uma cena dos Dixie Gang, mas a segunda é uma coisa, e passo a citar, “composta a partir duma série dodecafónica dada para o exame final de Técnicas de Composição, no Conservatório Nacional de Lisboa, em 5/7/1990”. Tinham-me dito que o homem já não bebia. Não sei se isto confirma ou desmente. Vão ouvir.

terça-feira, dezembro 28, 2004

 

Destaques (Técnicos de Marketing e KGB)

Victor Iuschenko diz que a sua cara é o rosto da Ucrânia.

Santana Lopes quer uma "campanha diferente": visitas a aldeias recônditas, pernoitas em repúblicas de Coimbra…


segunda-feira, dezembro 27, 2004

 

Mareógrafo

Gosto da palavra.
Descobri-a porque o fundo do oceano abateu algures no pacífico.
A maré subiu numa onda e levou muita gente.
Um pouco de silêncio e escutai o mar e os vivos equilibrando-se novamente.

sábado, dezembro 25, 2004

 

Para os loucos de Lisboa (sempre raros)

Alta telepatia mental
Sem pressa
Síntese (idade de Aquário)
a nova ciência da telepatia
acima da palavra
o dísciplo
consciente disso

Os loucos de Lisboa estão ao nível dos loucos de Nova Iorque, que têm melhores condições de trabalho, apoios institucionais, mecenato, estúdios na Baixa. Os loucos de Lisboa têm o peito, o corpo moreno das luzes das pequenas capelas e dos dias em que vão ao sol à Caparica.

O "disco do ano"* é afinal o motor do meu texto blóguico. Escrevo português na direcção e para os loucos. António Variações, Zé da Guiné, o vocalista dos Heróis do Mar passeando em Londres, outros loucos que espero ver subindo a rua do Carmo, descendo do Bairro Alto, ofuscando tudo de luz.

O velho cineasta ainda lá está, debaixo daquela árvore no Príncipe Real, dando postas de fígado aos pombos. Está, no plano mental, telepático, de alma. Um outro demora uma eternidade no gesto do cigarro à boca. Canta de olhos fechados e não tem coragem de morrer, nem de matar.

António Variações disse adeus à Sé de Braga e a Manhattan. Queimou-se num fogo mais que sol. Não há curandeiro de tribo africana que cure os males do corpo (embora o grande louco acredite nisso). De Lisboa para o mundo, subindo pelo odor das serras da infância. O sol pondo-se na mão que toca o peito, na cidade que amanhece no mesmo instante.

Alguém disse: o mundo só avança com as excepções. Está visto.

*CD dos Humanos, que dá vida aos “brutos” do Variações.

 

três poemas de amor menores

1.
Temos de falar Anita
No meio deste fado de rua escura
Quisera eu aceitar teus silêncios de portuguesa musa
Mas parece que não aceitas tu a vizinhança da minha ternura
Os rodeios com que te digo Anita com que te mostro
Anita os segredos todos


2.
eu queria dar-te todas as flores da Avenida de Roma
dar-te as plantas com seus nomes lindíssimos
lírio branco belas noites hortelã de leite
queria que fosse para ti a ilha da madeira
pétalas doces despedidas de verão
as flores da tropicália a botânica rara

e as flores de papel as corações de seis meses
flores inomináveis as das mães as das avós
queria que fossem tuas as que ainda não são
papoilas vermelhas em certos dias de verão
amendoeiras floridas em certas tardes de amor
o Japão à janela em forma de ulmeiro bonsai

e no meio da flora a luz incrível dos teus olhos verdes

e podia ser que as borboletas e a primavera
viessem também saudar os teus olhos grandes
e que dentro deles estivessem gatos dormindo na terra
no meio dos trevos e das orquídeas pequenas
podia ser que a flor dos teus olhos fosse compatível
com a claridade preguiçosa do quintal dos meus avós

onde vivem rosas encarnadas e pássaros férteis


3.
O amor é como o trigo
Ao urbano já lhe chega em pão
E não lhe sabe a mais
Que ao sabor cozido e vão

Mas se no instante antigo
O amor é trigo e céu e chão
Se o urbano o sabe é pela televisão


quarta-feira, dezembro 22, 2004

 

Raros Cafés de Lisboa (0)

O Estádio.
Sai um homem pequeno de cabelo grande e bastante oleoso na estação de metro Baixa-Chiado. Tem uns óculos fundo-de-garrafa onde se reflectem as luzes de Natal à medida que sobe os últimos degraus para o frio das 23h em Lisboa. Estão na rua todas as pessoas de Dezembro, de sacos de compras na mão. São uns daimosos estes lisboetas pró natalícios. E esse homem, pequeno, meio gordo, meio míope, meio fashion outsider, de livros na mão, emergindo para o frio das 23h em Lisboa. Podemos adivinhar nesse conjunto de livros uma antologia de João Cabral de Melo Neto, encabeçando um grupo de livros de poesia Romena contemporânea traduzidos para Francês, e uma tradução portuguesa da Violência e o Escárnio de Albert Cossery, tão a propósito nesta época em que os governos caem.

Recupera o fôlego, ajeita o cachecol até ao bigode e lá vai subindo para o lado das duas igrejas. Vira em direcção à Trindade, sobe no seu passo lento de quem já não põe as mãos no fogo pela própria saúde desde os tempos em que leu todos os russos, duas vezes. A literatura de vez em quando oferece-nos grandes obras, daquelas que têm o poder de dar outro rumo às nossas pobres certezas. Há livros que começam a incendiar as mãos que os pegam, depois aquilo vai subindo pelos braços, muito depressa, entra pelo peito, e o lume vai alastrando por dentro, vai queimando os tecidos podres, transforma-os em matéria virgem outra vez. Um corpo cada vez mais precário, porque é um outro tipo de matéria aquela que regenera. Outros tecidos apodrecem de vez. Enquanto se bebe da água essencial dos livros.

Pelo menos é impressão que se tem quando se vê a quantidade de míopes que frequenta O Estádio. Com muitos deles é impossível já comunicar. Outros são de uma ternura elevada ao extremo e é experiência que se aconselha a quem anda interessado em frequentar o lado errado da noite. Pelo menos o princípio de noite. NO Estádio a frequência é eclética. Temos de tudo: desde os velhos leitores embriagados, às meninas bonitas de esquerda com seus namorados barbudos e de rastas, temos também os Góticos, aquela rapariga vestida de preto, muito branca (ou será do contraste) que se senta sempre sozinha numa mesa do canto com uma cerveja e um velho caderno de desenhos, há as velhas putas gastas que se sentam a determinadas horas na mesa perto da porta, e por aí fora…

Uma vez, julgando-me tão perdido nas coisas do amor, pensei ser capaz de passar directamente para a fase das leituras nocturnas e das cervejas pretas e dos cigarros de enrolar numa mesa do fundo dO Estádio. Descobri logo que não tenho estatuto para me juntar aos velhos marginais devoradores de páginas amarelecidas. Levei um livro do Luíz Pacheco pedi uma preta enrolei um cigarro, e aquilo começou dar-me náuseas. A luz fortíssima da sala, uma confusão de vozes, os Exercícios de Estilo do Luíz Pacheco, a embriaguês a fazer aumentar o sentido das palavras. Tudo muito demais para a minha ainda tão vincada saúde física.

Resta-me frequentar O Estádio como observador. E ainda bem porque não tenho muita paciência para as derrotas antes do tempo. Talvez esteja a ser injusto ao dar a entender que esses personagens letrados dO Estádio são uns novos vencidos da vida. Mas é a impressão com que fico. Há uma grande solidão a pairar nas noites dO Estádio. Toca-nos, se estivermos atentos. Solidão e tristeza irremediável: nos olhos das velhas sem dentes, nas mãos de dedos amarelos dos homens ao balcão, na rapariga que desenha, na saudade ansiosa da menina de esquerda, na italiana de erasmus a tentar disfarçar o susto de ter vindo parar ao centro da Noite e do Riso da cidade mais bonita e mais cruel da Europa.

Alguém se levanta aos tombos de moeda na mão. Vai furando por entre as mesas até chegar à maquineta dos discos. Põe a moeda, escolhe o tema e no momento a seguir um I Just call to say i love you arremete surdamente pelas paredes brancas da sala.

terça-feira, dezembro 21, 2004

 

A Noiva Demitente

A noiva fez saber que queria tudo, e que no fim e que durante ia ser feliz. A noiva comprou um vestido, mandou fazer as alianças e esperou o dia mais quente do ano. O amante era muito mais jovem e ela era a primeira. E depois foram a Veneza, andaram pelos canais e fizeram amor dentro dos comboios da Europa. Adormeciam e amanheciam juntos. Foi assim até que a noiva chorou a primeira lágrima de medo. O amante, que era muito mais jovem pegou nos seus livros e saiu de dentro da casa da noiva. Ficaram noiva e gatos dentro da casa, o amante alugou umas águas furtadas e não comprou nenhum disco do Henrique Iglésias. Começou a fumar como um homem crescido e não tinha nada para além dos jornais diários. O amante comprava todos os jornais diários de referência mas não lia uma única palavra.

 

temperatura

Words for Laurie Anderson
Words by Laurie Anderson
Água para Laurie Anderson
Fogueiras e aviões para a Laurie
Voy a hacerme un cigarrito
Fumar em frente ao espelho
Espelhos para José Cardoso Pires
Megafones para a bonita Andrea
Sumo de laranja todas as manhãs
Acções matutinas são como laxantes
Cubos de gelo para Meredith Monk
Carne temperada para Américo Rodrigues
Catholic girls para Frank Zappa
Tom Jobim para Francis Albert Sinatra
João Gilberto para Tom Zé
Flores de boca para a Andrea
Ilhas mediterrânicas para Laurie
Nusrat Fateh Ali Khan para Tó Zé Chaparreiro
João Assis Pacheco controla a temperatura
Herberto Helder serve cervejas no Frágil
As SS ocupam as esplanadas de Paris
Paul Auster não escreveu os Capitães da Areia
David Beckham não escreveu Leviathan


 

madrigal à cidade

Sobre a cidade de Lisboa. Para a Lisboa dos amantes, dos navios a ver poetas. Do alto dos Miradouros, de dentro dos Cafés, nas ruas à noite, de cigarro na mão nas ruas ao sol. Enquanto houver mundo debaixo dos pés, e enquanto houver madrugadas frias junto ao rio, e manhãs nascendo para dentro de Águas Furtadas. Para Lisboa, do mês de Dezembro em diante. As palavras merecem esta cidade.

(Baixa-Shiatsu é também um projecto de Spoken Word ainda sem currículo)

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