quarta-feira, dezembro 22, 2004

 

Raros Cafés de Lisboa (0)

O Estádio.
Sai um homem pequeno de cabelo grande e bastante oleoso na estação de metro Baixa-Chiado. Tem uns óculos fundo-de-garrafa onde se reflectem as luzes de Natal à medida que sobe os últimos degraus para o frio das 23h em Lisboa. Estão na rua todas as pessoas de Dezembro, de sacos de compras na mão. São uns daimosos estes lisboetas pró natalícios. E esse homem, pequeno, meio gordo, meio míope, meio fashion outsider, de livros na mão, emergindo para o frio das 23h em Lisboa. Podemos adivinhar nesse conjunto de livros uma antologia de João Cabral de Melo Neto, encabeçando um grupo de livros de poesia Romena contemporânea traduzidos para Francês, e uma tradução portuguesa da Violência e o Escárnio de Albert Cossery, tão a propósito nesta época em que os governos caem.

Recupera o fôlego, ajeita o cachecol até ao bigode e lá vai subindo para o lado das duas igrejas. Vira em direcção à Trindade, sobe no seu passo lento de quem já não põe as mãos no fogo pela própria saúde desde os tempos em que leu todos os russos, duas vezes. A literatura de vez em quando oferece-nos grandes obras, daquelas que têm o poder de dar outro rumo às nossas pobres certezas. Há livros que começam a incendiar as mãos que os pegam, depois aquilo vai subindo pelos braços, muito depressa, entra pelo peito, e o lume vai alastrando por dentro, vai queimando os tecidos podres, transforma-os em matéria virgem outra vez. Um corpo cada vez mais precário, porque é um outro tipo de matéria aquela que regenera. Outros tecidos apodrecem de vez. Enquanto se bebe da água essencial dos livros.

Pelo menos é impressão que se tem quando se vê a quantidade de míopes que frequenta O Estádio. Com muitos deles é impossível já comunicar. Outros são de uma ternura elevada ao extremo e é experiência que se aconselha a quem anda interessado em frequentar o lado errado da noite. Pelo menos o princípio de noite. NO Estádio a frequência é eclética. Temos de tudo: desde os velhos leitores embriagados, às meninas bonitas de esquerda com seus namorados barbudos e de rastas, temos também os Góticos, aquela rapariga vestida de preto, muito branca (ou será do contraste) que se senta sempre sozinha numa mesa do canto com uma cerveja e um velho caderno de desenhos, há as velhas putas gastas que se sentam a determinadas horas na mesa perto da porta, e por aí fora…

Uma vez, julgando-me tão perdido nas coisas do amor, pensei ser capaz de passar directamente para a fase das leituras nocturnas e das cervejas pretas e dos cigarros de enrolar numa mesa do fundo dO Estádio. Descobri logo que não tenho estatuto para me juntar aos velhos marginais devoradores de páginas amarelecidas. Levei um livro do Luíz Pacheco pedi uma preta enrolei um cigarro, e aquilo começou dar-me náuseas. A luz fortíssima da sala, uma confusão de vozes, os Exercícios de Estilo do Luíz Pacheco, a embriaguês a fazer aumentar o sentido das palavras. Tudo muito demais para a minha ainda tão vincada saúde física.

Resta-me frequentar O Estádio como observador. E ainda bem porque não tenho muita paciência para as derrotas antes do tempo. Talvez esteja a ser injusto ao dar a entender que esses personagens letrados dO Estádio são uns novos vencidos da vida. Mas é a impressão com que fico. Há uma grande solidão a pairar nas noites dO Estádio. Toca-nos, se estivermos atentos. Solidão e tristeza irremediável: nos olhos das velhas sem dentes, nas mãos de dedos amarelos dos homens ao balcão, na rapariga que desenha, na saudade ansiosa da menina de esquerda, na italiana de erasmus a tentar disfarçar o susto de ter vindo parar ao centro da Noite e do Riso da cidade mais bonita e mais cruel da Europa.

Alguém se levanta aos tombos de moeda na mão. Vai furando por entre as mesas até chegar à maquineta dos discos. Põe a moeda, escolhe o tema e no momento a seguir um I Just call to say i love you arremete surdamente pelas paredes brancas da sala.

Comments:
Vejo que aderiste mesmo aos tempos modernos e vieste transumar on-line :P
Muito bem! estamos aqui para te ler.

Diana
 
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