sábado, dezembro 25, 2004

 

três poemas de amor menores

1.
Temos de falar Anita
No meio deste fado de rua escura
Quisera eu aceitar teus silêncios de portuguesa musa
Mas parece que não aceitas tu a vizinhança da minha ternura
Os rodeios com que te digo Anita com que te mostro
Anita os segredos todos


2.
eu queria dar-te todas as flores da Avenida de Roma
dar-te as plantas com seus nomes lindíssimos
lírio branco belas noites hortelã de leite
queria que fosse para ti a ilha da madeira
pétalas doces despedidas de verão
as flores da tropicália a botânica rara

e as flores de papel as corações de seis meses
flores inomináveis as das mães as das avós
queria que fossem tuas as que ainda não são
papoilas vermelhas em certos dias de verão
amendoeiras floridas em certas tardes de amor
o Japão à janela em forma de ulmeiro bonsai

e no meio da flora a luz incrível dos teus olhos verdes

e podia ser que as borboletas e a primavera
viessem também saudar os teus olhos grandes
e que dentro deles estivessem gatos dormindo na terra
no meio dos trevos e das orquídeas pequenas
podia ser que a flor dos teus olhos fosse compatível
com a claridade preguiçosa do quintal dos meus avós

onde vivem rosas encarnadas e pássaros férteis


3.
O amor é como o trigo
Ao urbano já lhe chega em pão
E não lhe sabe a mais
Que ao sabor cozido e vão

Mas se no instante antigo
O amor é trigo e céu e chão
Se o urbano o sabe é pela televisão


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