segunda-feira, janeiro 10, 2005

 

Let us compare mythologies*

Espero um dia ver-te parada no meio-dia do teu cigarro de fim de almoço. A toalha da mesa suja de azeite na sombra do quintal, o teu corpo quente, a luz no teu vestido, nas tuas pernas brancas de domingo. E parados, espero ver nesse silêncio de sorriso e fumo e pássaros todas as imagens que ainda não filmaste.

Calçada do Duque. Restaurante Bar Solar dos Galegos. O indivíduo de barba branca escreve para assassinar a própria morte. Tem um enorme rio dentro do peito que usa para gerir o tamanho do incêndio que as palavras ateiam.

Cabo Carvoeiro. Parte do reino dos corvos marinhos instala-se no corpo do monstro de pedra. O monstro está ali aos anos, plantado no fim do cabo: cabeça, tronco e braço, uma solidão do tamanho do mar. Resta fotografá-lo do alto do miradouro antes que desista e desmorone para dentro do oceano onde não há vento, nem corvos marinhos e onde fará ainda mais frio no seu coração de pedra. Ao longe, as Berlengas são o reino de gaivotas.

O Amolador de Tesouras aparece no seu corpo invisível de música e nevoeiro. Chega dentro dessas manhãs da infância e é ao mesmo tempo o D. Sebastião, o Galego e o Cigano. Seguro a mão da minha avó a caminho da Padaria onde o meu avô Padeiro está à espera no portão com o seu olhar alegre e cansado de quem fez pão a noite toda. A música do Amolador ainda se ouve no longe das ruas. O cheiro do meu avô (que é o cheiro do pão) invade as primeiras horas da Vila.

X. filma o fumo de uma chaminé em Glasgow entrando no céu triste da Escócia. X. cataloga silêncios e pensa em casas com jardim, em Lisboa. Eu penso em Zorba o Grego. Penso em cinema. Penso nas carpideiras mediterrânicas e nas mulheres da Nazaré, sentadas na areia da praia. Penso em Cartier-Bresson. Penso em X.

(Inês de Castro morreu a 7 de Janeiro de 1355, o mito prevalece 650 anos depois)



*O título de um livro de poemas de Leonard Cohen

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