quarta-feira, janeiro 19, 2005

 

O nº68


Nesta casa, o nº 68 da Saraiva de Carvalho em Campo de Ourique, terá morrido Almeida Garrett. Em Dezembro último comemorou-se os 150 anos sobre o facto e eu escrevi um texto na Bicicleta Ousada (um blogue que durou um mês e que foi pedalado a meias com o João Pacheco).
A casa está a cair e não sei se há planos para a recuperar. Fica a fotografia e o texto repescado.


Para o Garrett,
em jeito de homenaviagem na minha terra


Almeida Garrett sobe o Tejo até Santarém. Do alto das Barreiras vê a Lezíria toda, os campos cultivados, as vinhas, a serra, o céu enorme. O país é um povo pobre que escarra e canta e trabalha a terra. Há um sol e pólvora, rebentam bombas nas mãos de homens. Quem pode foge pelas serras, com a roupa do corpo, uma manta para dez. Os pés nus e pretos, as crianças magras, as mães sujas e feias. E o cheiro da pólvora, o frio da noite, a política. A revolução abria peitos à bala. Numa madrugada marcial e gelada.

Espreito do alto das Barreiras a minha terra. Um céu azul, a ausência de mar mas o rio longo em direcção a ele. Silêncio de pássaros, comboios lá em baixo, pessoas distantes sem voz, sem som. Penso no Almeida Garrett minado de cancro em Lisboa. Imagino-o numa cama comido por dentro. As amantes uma a uma em visita de lágrimas. Na Rua Saraiva de Carvalho em Campo de Ourique. O homem em agonia cuspindo sangue. Numa rua ao lado escrevo impunemente frases sem rigor histórico. Na Rua da Arrábida, sem conhecimento de causa.

Na verdade nada sei sobre a minha terra, ou sobre o homem que terá escrito a primeira descrição de um acto sexual em língua portuguesa. E que morreu aqui ao lado, numa casa da Rua Saraiva de Carvalho. Minado de cancro, pensa-se. Sei pouco de Liberais e Miguelistas, mas terei vindo em ascendência directa dessas mães sujas e feias, desses homens descalços. Pobres que da Lezíria subiam às serras em noites de rebentamento e incêndio. Terei vindo desse povo que vestia roupa negra e gasta e que trabalhava a terra e morria tísico e tuberculoso, explorado.

Agora sou vizinho de um morto. De dois mortos importantíssimos: Garrett e Carlos Paredes, que terá morrido um pouco mais acima, num lar perto do largo dos Correios. Penso nisso com a ingenuidade toda. E com respeito. Ter vindo para Lisboa foi ter percebido que existe uma cidade onde se pode conviver com mortos e vivos incendiários. E em maior abundância que na minha terra plana. Tropeçar no Cesariny na Rua do Sol ao Rato com poucos dias de cidade: foi e é pirotecnia, habituado como estava ao Cesariny impresso e depositado em Biblioteca Pública. Lisboa é uma revolução permanente. Lembra-me o cheiro a pólvora da guerra civil desse tempo do Garrett. E vim eu das serras onde os meus avós se escondiam, para participar na entropia politica, social, cultural do país. Fazer parte disto. Escrever dentro disto. Usar a língua do Garrett.

E o Garrett a morrer ali ao lado, com a sua barba esquisita. Os olhos na amante, as mãos na amante. É às amantes que melhor tem servido a língua portuguesa.

Comments:
Viagens na minha rua, com vista para mupis com publicidade subreptícia.

Vai ver o último da "Bicicleta dos dias ímpares - observatório volante":

http://pedala.blogspot.com/2005/01/seguindo-o-fio-de-ariadne.html

com abraços garretescos do
João Pacheco.
 
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