segunda-feira, fevereiro 28, 2005

 

Para combater o frio

A baixa-shiatsu propõe um passeio nostálgico pelo trompete solarengo do Miles.

 

Frio

O frio entra por todos os buracos da roupa entra pelo nariz e sai pela boca e ouvidos aloja-se por debaixo dos cabelos entre os dedos fica escondido entre a camisola e a barriga entre a ganga e a canela no espaço entre o couro dos sapatos e os dedos dos pés. Podia ser pior se vivessemos em latitudes mesmo mesmo geladas. Onde até mesmo a quentura da alma cedesse à lamina fria dos Invernos frios frios frios.

domingo, fevereiro 27, 2005

 

Zinom Mitram

Martim Moniz: dos poucos sítios em Lisboa verdadeiramente cosmopolitas. Percam-se no meio do comércio e dos comerciantes.

 

A anciã

Nasceu em 1909 e morreu na sexta-feira à noite no chão da cozinha. Era minha amiga.

 

Raros Cafés de Lisboa (2)

O Jaime.
Na graça.
Se formos andando pela rua do eléctrico em direcção aos Sapadores, antes da bifurcação, do lado direito e a seguir a um salão de jogos, fica a tasca do Jaime.

Há fados ao fim de semana depois do almoço.
O Jaime e a mulher (infelizmente ainda não sei o nome da senhora) são de uma ternura e uma simpatia que é difícil encontrar noutros lados.

Passei este Sábado por lá e (ou)vi:
Velhos e velhas à vez cantando mediterrânicos fados; olhares vadios; cheiro a comida; o eléctrico passando à porta; o silêncio no momento certo; olhos cerrados no momento certo; desafinações no momento certo; o cigarro no canto da boca do guitarrista.

E um verso mais ou menos isto:
Não é por morrer uma andorinha que acaba a Primavera
(quem está por dentro ri do sentido que faz ouvir isto na Graça)

Na tasca do Jaime há fado vadio a sério, sem encenação para turista ver.
É uma das minhas tascas fetiche. Aconselho vivamente!

 

As leituras

Leio
Amar não acaba, de Frederico Lourenço.

 

Primeiro balanço oficial

Este blogue começou a 21 de Dezembro de 2004.

É uma criança com cerca de sessenta actualizações postadas. Coisa pouca.
Os leitores, se não me engano, contam-se pelos dedos da mão. Mas são os melhores leitores do mundo. Os meus amigos.
Tem servido para me fazer escrever, nem que seja uma linha, todos os dias. Tem servido para treinar o meu sentido crítico, o meu humor, a minha escrita.
São tudo boas razões para continuar.

Um grande beijo às leitoras e aos leitores (são certamente mais as leitoras!).
Um agradecimento especial ao meu irmão que me tem ajudado nos pormenores mais complicados da manipulação informática e internética – é sempre uma aventura para um info-excluído colocar uma simples imagem num post...

(e fico por aqui que a noite dos Óscares é só amanhã)

sexta-feira, fevereiro 25, 2005

 

Raros Cafés de Lisboa (1)

Bar Venezuela Café Restaurante. Mas até o Senhor João que está à frente do negócio se engasga com o nome. É Café Venezuela, mais nada, e fica no coração de Campo de Ourique, Rua Coelho da Rocha (a do Pessoa) perto do Mercado. Entrei lá ontem pela primeira vez. Já andava a topar o sítio: um grande toldo, meio gasto; a entrada de café antigo; e aquele nome, que ali, num bairro de Lisboa me soou deliciosamente descabido, exótico. Um nome daqueles prometia um grande Café. Tinha potencial.

Passados uns dias entrei nele. Ia preparado com um recorte de jornal em que vinha uma notícia recente sobre um país que se chama Venezuela, sabem? Fica na América Latina e tem um presidente que se chama Hugo Cháves, que é um filho da puta (para escrever bem e depressa). A Venezuela tem vivido tempos difíceis. Grande parte da América latina vive, faz muitas décadas, sobre a égide desses Governantes da América Latina. A designação é pejorativa, vejam.

Entrei no café, pedi qualquer coisa para comer e sentei-me na mesa do fundo. Puxei do portátil (que aprendi a gostar de utilizar em mesas de Cafés e em jardins ocasionais) e a ideia era escrever um texto que fizesse a ponte entre a actualidade política Venezuelana e este Café antigo perdido no tempo e num bairro como o de Campo de Ourique. Acabei por não conseguir escrever nada para além das duas primeiras frases, que até já nem são aquelas que ali em cima leram.

O que aconteceu foi que, ia eu a meio da sandes de queijo, já de portátil aberto e mãos prontas a teclar o que os meus olhos viam, quando se aproxima certo indivíduo magro e escanzelado. Espreita (sim, ainda não é habitual essa coisa de abrir computadores em certos estabelecimentos) e começa o observador a sentir-se observado e a ser objecto, também ele, de estudo. Queria saber quem eu era e o que fazia ali, se era jornalista ou assim. E eu ia dizendo ao que vinha, ia dizendo do meu interesse em encontrar uma ligação entre o País e o Café, tendo como ponto de partida a notícia recortada e aquela mesa ao fundo onde pouco depois convidava o meu inesperado interlocutor a sentar-se.

A conversa comeu o texto (e ainda bem). E a conversa pediu cerveja e tremoços e mais cerveja. Fiquei a saber mais desse Café e um pouco da história do indivíduo que a contava. Frequentava o Venezuela desde miúdo: era o único sítio aberto até às quatro da manhã em Campo de Ourique, com as melhores sandes de carne assada do país. Quem o frequentava fazia-o para dizer mal, isto no tempo ainda do Salazar. Iam lá jornalistas, escritores, pintores, bêbados, quase todos, comunistas, alguns. Ele era um puto na altura, um dos meninos bem que vinha à procura de um pouco mais na Lisboa amordaçada daquele tempo. Nomes? Stau Monteiro, Assis Pacheco, uns cineastas obscuros, gente das letras. Havia um que era pintor comunista ortodoxo, um homem com quem era impossível comunicar. A mulher com quem casou matou-se duas semanas depois do casamento, atirou-se da janela. Esse homem desenhava e bebia a noite toda. Falamos de cinquenta imperiais por noite, uma coisa monstruosa. Desenhava com as beatas e com os fósforos queimados nas tolhas de papel, usava as manchas de café e cerveja juntamente com a cinza. Todas as noites ia para o lixo uma obra de arte.

Devo ter ficado na conversa umas três horas, talvez quatro. Tive que sair, quase fugir dali para fora. O homem parecia pronto para falar mais três, quatro horas, e já não importava se a CIA conseguiria ou não assassinar Hugo Chávez (como o próprio tem vindo a advertir). Venezuela era aquele Café em Campo de Ourique, Venezuela era um Café e um bairro inteiro. E cabiam nesse bairro que era um país da América Latina, todas as conversas embriagadas (ao mesmo tempo lúcidas) que se podem ter entre um homem de cinquenta e um anos e um rapaz de vinte e cinco. Interessado.

A conversa já ia na Velha Goa. Tinha dado a volta ao mundo e estávamos de regresso a Lisboa e ao país em 2005. Mas uma questão prevalecia: porquê Café Venezuela? De onde veio tal nome? Parece que uma das pessoas que abriu o estabelecimento arranjava (ou facilitava) vistos para a Venezuela. Explicado.

Já sabem as coordenadas. Que tal uma cerveja?

(O Café Venezuela sofre de um mal que infelizmente é generalizado: tem televisão. Mário Cesariny deixou de escrever porque só o fazia na rua e em cafés, e como a partir dos anos sessenta começaram a aparecer os primeiros televisores nos Cafés de Lisboa, desistiu, já não era capaz…)

 

Roteiro dos Cafés raros

De cigarro ao canto do sorriso olhos cheios de sol casaco fechado até ao pescoço. A baixa-shiatsu vai procurar os cafés com mais pinta de Lisboa.

Para breve...

quinta-feira, fevereiro 24, 2005

 

As leituras

A ler
Um romance de Susan Sontag: Na América

Lido
De Julio Cortázar: Prosa do Observatório

 

Momento Zen (2)

Os budistas chamam-lhe o vazio fértil. É o dolce fare niente dos itálicos, a deliciosa preguiça dos bons vivãs... No fundo não fazer nada é uma actividade interior, cheia de malabarismos mentais. Se conseguirmos gerir o nada, que é tudo, esse vazio tornar-se-á fértil, se o aceitarmos e construirmos em cima dele o que em nós existir de infinito.

quarta-feira, fevereiro 23, 2005

 

É o Pudim Dannon... (cantando)

Nas passadeiras de Lisboa brilha em amarelo a frase “pare para ver e ser visto”.

Contradiz o velho ditado “parar é morrer”.

Santana diz que já não tem idade para mudar de profissão.
Vai parar um bocadinho, mas só para descansar. Depois regressa à política activa.

A propósito (?) o Chelsea perdeu por 2 a 1 em Barcelona

 

Só queria dizer que…

Entre Conan O’brien e Jay Leno, prefiro Conan O’brien. E voçês?

terça-feira, fevereiro 22, 2005

 

Irão Fátimas e Santana

Mais uma prova de que em Fátima se faz um bom serviço público: depois de naquele local o clero ter dado início a um ciclo de orações a favor da chuva, ela aparece. Até agora timidamente, mas aguardando-se um aumento da pluviosidade com o prometido acréscimo das conversações e um aumento da acção diplomática da igreja, já que a conjuntura se tornou deveras desfavorável com o resultado nas urnas dos democratas cristãos bem como de toda a direita.

E por falar em Fátima, parece que Fátima Felgueiras concedeu a hipótese de ser ouvida em tribunal. Começou a coisa.

Mais...
Santana sai!
O Irão tremeu.

segunda-feira, fevereiro 21, 2005

 

Adiante!

Lisboa está num chove não chove.
O País está num chove não chove.

Mas adiante, que o país está entregue a um índividuo que tem no currículo, entre outras coisas, o facto de ter sido filósofo da grécia clássica.

Não usemos já da cicuta mas estejamos atentos.

Um abraço a todos!

 

O outro

Nas próximas presidenciais, tenha medo, muito medo…
Ele é capaz de voltar, ele volta sempre.

(ou, sem medo, esteja atento e não deixe)

domingo, fevereiro 20, 2005

 

O Ministro da Defesa e o Paulinho das feiras

Parece que foram à vida.
O candidato Paulo Portas pede novo líder para o seu partido. Consternadíssimo. De cabeça erguida.

Vamos ver se o outro também o faz. E como o faz. Estamos sempre à espera de rasgos teatrais e de génio nos momentos decisivos. E nos outros.

 

LOL

Pedro Santana Lopes

 

Eles falam falam

Continuo atento à Coisa na televisão. Falam os porta-vozes, os líderes, os comentadores, os jornalistas. Dispenso a rapaziada das bandeiras e das buzinas em avenidas frias – a reportagem de exterior; o suor alegre dos encarneirados; o ar decepcionado dos laranjinhas; o sorriso amarelo dos betinhos do CDS.

 

Gosto quando se diz:

À boca das urnas
À boca pequena
Má-língua

Meãs certezas (apeteceu-me dizer agora. Gosto de dizer meã, rã, manhã…)

Gosto do nome: Chão de maçãs.

 

Previsões

O PS, por esta hora, é já o vencedor destas eleições legislativas.
O PPD-PSL, perdão, PPD-PSD é um derrotado. O maior derrotado.
Na voz dos porta-vozes do CDS-PP a noite ainda é uma criança. Mas tudo leva a crer que não atinjam aquilo a que aspiravam.
A esquerda sobe. A direita não.

A abstenção desce. Acho que seria justo agradecer desde já a Santana Lopes por este facto. Foi ele que pediu o tal levantamento nacional.

 

Está feito! (e tudo ainda por fazer)

De volta a Lisboa.
Oiço John Coltrane (Ascencion), de porta aberta para o dia claro.

De Almeirim recordo:
O cheiro a estrume nas ruas.
As árvores podadas da estrada para Santarém.
Cerveja.
Certo amigo bom.
Certo casaco de astronauta.
Um espirro de olhos no sol da uma hora (para ajudar).
Um papel dobrado na Urna.
Um número de eleitor que todos os anos dá trabalho para saber se acaba em oito ou em nove.
O Tejo.

(uma curiosidade: fui votar de braguilha aberta. foi sem querer, a sério)

sábado, fevereiro 19, 2005

 

Cogitando

Sábado.
A baixa-shiatsu senta-se de mão no queixo e pensa. Os pássaros misturam-se com o sol do fim de almoço. E há um silêncio de pássaros e sol nas cidades e nas vilas.

Daqui vejo:
O vento acariciando roupa no estendal dos vizinhos.
Uma nespereira no mesmo quintal.
Uma laranjeira.
Um limoeiro.

Pequena aeronave sobrevoando este silêncio ruminante.

sexta-feira, fevereiro 18, 2005

 

“Os portugueses percebem bem...”

Quantas vezes Sócrates repetiu esta frase?

Vezes demais. Vezes demais.

 

Ibéricidades

Descobrir a LE COOL

quinta-feira, fevereiro 17, 2005

 

Lobo Antunes

Para Nobel da Literatura, e tal !

 

Se não costuma votar...

Eis que chega à caixa de correio dos portugueses uma carta do nosso Primeiro-Ministro / Candidato a Chefe de Governo. Envelope branco, simples, sóbrio, sem remetente, apenas um vago destinatário: aquele que “não costuma votar”.

E quem pensa que vai encontrar lá dentro a berrante cor da propaganda engana-se, que lá dentro mora o despojamento da folha branca, do texto limpo, curto, sincero, sem arranjos, sem designes, uma coisa que vem directamente do autor, sem passar pelos chefes de campanha (esses Carnaval makers) que com tanta propaganda esquecem a maneira mais simples de chegar ao coração das pessoas.

Então que, abrindo o envelope, a surpresa: Pedro Santana Lopes! Afinal é ele que assina a azul o canto da folha. "Caro(a) Amigo(a), ..."
E quem não quis ler o conteúdo mas leu as primeiras linhas para perceber o tom, fica a saber que se não ler a coisa até ao fim está a “fazer como o Presidente da Republica”. Suponho que a censurar a virtude.

Mas quem lê aprende:

Que quem não vota tem agora razões para votar: um candidato que vem “de fora do sistema” que alguns “poderosos” querem manter. Santana Lopes tem “defeitos como todos os seres humanos”, admite, mas “não há político em Portugal que eles tratem tão mal”. Por isso há que ajudá-lo. Votar, que é um “favor” que ele nos “pede”. E é “por todos nós” que o faz.

Pronto. É por isto que se deve votar nestas eleições. No PPD-PSD, claro.

 

No domingo que vem

Depois de tudo o que vimos e sabemos e achamos, levemos o voto ao teatro das urnas. Ou não...

Democracia?

quarta-feira, fevereiro 16, 2005

 

Eu hoje acordei assim

Mudam-se os tempos mudam-se as vontades...*


*cantando Zé Mario ao acordar. Antes durante e depois do banho.

terça-feira, fevereiro 15, 2005

 

Mandriões no vale fértil*

Que aconteceu hoje? Dormi o dia todo.

*Um título de Albert Cossery

segunda-feira, fevereiro 14, 2005

 

René Kubásek

Reencontrei o René por acaso na Rua da Rosa faz dois dias. Conheci-o em Lisboa, em 2003. Ficou na “minha” casa. A nossa ligação surge porque sou amigo de uns amigos dele, que tiveram o mérito de com ele travar conhecimento. E fiquei em casa dele em Praga meses depois. Mostrou-me a Praga não turística, foi um privilégio.

René é um apaixonado por Lisboa. Volta cá sempre que pode. Fotografa com uma ternura enorme a cidade e as pessoas daqui. Parte, e depois, passados uns tempos, volta e anda pelos locais onde esteve, à procura das pessoas que fotografou. Dá-lhes as suas (e deles) imagens.

René Kubásek fala português. E tem as suas fotografias na Ler Devagar.

14 de Fevereiro, 2ª feira às 21.30h EXPOSIÇÃO Inauguração da exposição fotográfica «Praga e Lisboa aos Olhos dos Guarda-freios»de René Kubásek

 

No índice

A baixa-shiatsu começa a render-se a mais endereços. Acaba de indiciarO sinédrio”, blogue novo na esfera. E, já agora, na mesma coluna de valores, vão espreitar “A bomba inteligente”, tem uma agradável surpresa por estes dias: música.

Uma boa semana para os leitores!

 

Feira da ladra em texto automático.

(com incursões marginais)

Porque a resposta clara vem de dentro das nossas palavras tão gastas e ainda fazes parte de um dia inteiro fotografado. Depois, era tão natural ficar horas a ler as tuas anotações, o teu caderno onde anotas todos os passos e todas a direcções. Erros e dramas de viagem algumas lágrimas ao pé de rios, o último cinema.

Encostei o meu rosto. Tenho dormido tanto que tenho as marcas disso. Na tua espera. Esperas por mim? Soltas essa maneira silenciosa de fotografar os domingos em que não estou. Os sábados onde compramos brinquedos. Na feira cheia de carteiristas certeiros. Também eu ponho secretamente a minha mão no teu decote. Escreves isso no teu diário: golpe de karaté muito rápido.

Encostei a minha cara. Estou tão desperto, calço sapatos dignos de ruas cheias de Verão. Faz-me falta o tempo a passar na esplanada azul. Fazes-me falta. Podia ser tudo como uma viagem de automóvel na marginal. Aceleras de óculos escuros tens aquele lenço das bolinhas no pescoço o cabelo solto na linha.

Eu fecho os olhos contigo dentro. Acendo um cigarro às escuras tu paras num vermelho e cantas a canção. Sabes francês? Queres dizer-me galicismos com batom. Vermelho. Faço um olhar português mas algarvio. Sou um pescador moreno ou então sou um marroquino pastor transumante.

Fui ter contigo era dia de feira. A feira da ladra dos amantes. Comemos uma sopa perto e comprámos tanto por tão pouco. Copos multicolores para a tua cozinha grande. Saudades um do outro das noites em que não fazemos amor. Nas noites em que não misturamos suor cheiro sono. Saliva-memorando.

Hoje, és a adiafa dos dias salvos.

quarta-feira, fevereiro 09, 2005

 

Sonho Nobel

Sonhei com Gabriel Garcia Marquez. Acabei de sonhar com ele, que se encontrava de visita a Portugal e, não sei por quê, tinha ficado em casa da minha família. Dormitava em casa dos meus avós apenas interessado em silêncio e nos noticiários de hora a hora. No mais, dormia em pequeno sofá numa marquise que existe na Várzea dos Cavaleiros (perto da Sertã). Eu, queria à força dar-lhe todo o conforto mas falhava em tudo: não me conseguia calar, às coisas largava-as sem querer mesmo ao pé dele. Os outros da minha família entravam por ali num à vontade que eu não percebia, faziam barulho e eu não entendia como era possível tratar assim o velho escritor sul-americano premiado.

Para falar a verdade, não gostei nada da minha atitude no sonho: completa subserviência, demasiada simpatia, respeito exacerbado, contraproducencia pura. É verdade que o homem é um grande escritor e que tem direito a descanso, por estar velho e doente, e por ter vindo de tão longe para ser sonhado por mim na rua da Arrábida, ao Rato, mas, não creio ter sido muito inteligente na aproximação. Devia ter ido à minha vida. Há tantas coisas que se podem fazer num sonho. E devia ter lá passado depois, já Gabriel Garcia Marquez estaria à mesa, a comer um maranho e a beber tinto carrascão das Beiras. Aí seria fácil fazer-lhe a pergunta. Porque, eu queria perguntar-lhe qualquer coisa. Não me lembro já do quê. Devia ser só para fazer conversa, que raio. Tenho de mudar esta minha atitude!

 

“Ó meu grande Umberto Eco!!!”

Desabafo/insulto
(ouvido por um amigo)
de um taxista de Lisboa referindo-se a alguém que supostamente atrapalhava o trânsito.

Semiótica em hora de ponta.

segunda-feira, fevereiro 07, 2005

 

Dripping

Eu não compreendia grande coisa do mundo. Falo de noções geográficas e o que seria isso da Europa, dos países, dos nomes dos países, da distância dos países, da língua das pessoas dos países. Pensava que choravam numa língua diferente, que sorriam noutro idioma. Hoje tenho a certeza, sem a ter, que era Viena da Áustria naquelas fotografias azuladas dos anos setenta. Praças, edifícios, monumentos, automóveis em fotografias de, talvez fossem, manuais escolares.

Agora outra imagem: outro quadro: aquelas tardes de calor e o meu corpo de cinco anos (o mesmo corpo coevo à descoberta das fotografias do mundo) de têmporas suadas e pés descalços, brancos, no cimento do quintal das formigas, dos pássaros e dos meus avós, na hora em que os adultos desistem na sombra dos quartos entre os noticiários modorrentos da Antena 1. Por vezes a rádio resvalava para Marrocos ou para a Espanha dos “poetas andaluces de ahora”, em AM encantatória. Era magnifico assistir a essas sestas mas lá fora, sozinho, as mãos inchavam de calor e eu estava vivo.

Estava vivo, suado, periférico e o sangue escapando pelo nariz era um ritual que entretinha não raras vezes a minha infância em tronco nu e pente quatro. Hoje, na minha folha de papel branco, no meu momento, na minha mesa de trabalho, nos meus cigarros Amsterdamer, na minha “ciência do adeus” sobre a toalha de padrão quadriculado, no Paul Auster, nos santos populares, na máquina de escrever – que se impõe contra a eficácia eficiente do portátil, na minha casa pequena, quente, onde “te recuerdo Amanda”, onde preparo as viagens e me inicio na arte da cozinha e onde Louis Armstrong acerta no swing das noites tristes, lembro a bela imagem desse sangue gota a gota, vermelho, pingando praças, edifícios, monumentos e automóveis dessas Vienas, ou dessas Romas, ou dessas Pragas.

O meu avô dormia numa ladainha árabe, sem princípio nem fim.

 

Enunciado para um desenho vertical

Faz crescer qualquer coisa azul dentro do peito e vai abrindo essa segunda camada de pálpebras que tens entre a alma e o sol. Convém sempre estar munido de memória, de mentiras e de verdades e arranja também um pouco de vento. Põe-te sozinho.

Se fores homem deixa crescer a barba, se fores mulher encosta simplesmente as mãos a uma árvore, cheira esse tronco. Que não te ocorra nada para dizer. Homem e mulher, as palavras não servirão de nada e o desenho começa nas mãos que começam no peito, que começa. Assim, serve-te do peito e das mãos para encontrar o desenho. Escolhe uma imagem. A imagem pode ser violenta, pode não ser bem uma imagem, pode ser um som, ou um cheiro, pode ser o resumo da claridade que te moldou a infância, pode ser o esforço de te lembrares disso tudo, mesmo que tudo isso esteja já esquecido. Depois desenha e fica sentado. Senta-te e desenha. E depois desenha esse desenho em pé, vertical, silencioso, sem que falte desenho ao desenho, sem que te mates nisso. Podes desistir em qualquer momento, não há problema nenhum nisso. Desistir ou morrer antes do desenho já é qualquer coisa e, sem que o saibas, pode ser esse o teu melhor registo. Porque o registo é-o sem ter que deixar marcas no mundo. Sem ter de ir daqui para o futuro com corpo visível. Ao desenho regista-o sempre nesse limiar do que é e não é e do que parece, porque tudo existe.

E quando já for bem alto o teu desenho, subindo, elevando-se, deixa-o onde está para que lhe dê o vento. Aqui, o mundo acaba e recomeça sem que dês por isso, e compreendes que o mundo acaba e recomeça sem que dês por isso. Se fores homem com barba, se fores mulher com árvores, se fores pessoa que desenha porque a noite.

Encontra uma saída. Experimenta agora qualquer coisa menos concreta. Por exemplo, andar de bicicleta, escrever uma carta, pôr um CD na aparelhagem. Faz um desenho horizontal ou um desenho diagonal, qualquer coisa que desconcerte todas as tuas certezas, e as minhas. Para quê ter um desenho vertical ao vento? Para quê este enunciado? Para onde vai a dança quando a bailarina termina? Faz este género de perguntas. Quando deres por ti a noite é enorme, o desenho não para de crescer e há uma música, um piano triste. É provável que a bailarina durma.

Mas a manhã regressa, o vento muda de direcção, os automóveis continuam, dando certeza ao avançar das horas. O desenho coalha na alba. Ouve o barulho das pessoas em direcção aos empregos (ya que de algo hay que morir). Sai para a rua e vai ver isso. Entra nas lojas, assiste ao comércio e aos comerciantes, entra na praça onde vozes apregoam legumes e bocados de mar. Olha nos olhos de todas as pessoas que cruzarem o teu caminho. Sente o cheiro a pão em algumas ruas. Olha velhos e crianças, nos seus rituais, nas suas vidas, lembra-te do teu lugar no mundo. Talvez te apeteça sorrir.

Dedica o desenho aos teus contemporâneos.

 

A chuva

"Acho que a chuva ajuda a gente a se ver”*

*ainda o Caetano. Sempre o Caetano…


domingo, fevereiro 06, 2005

 

“Pode-se fumar ao pé dos livros”

Em Montemor-o-Novo numa livraria.
Ouve-se Keith Jarret (o concerto de Colónia) ao cair da noite. Lembro Nanni Moretti de motorizada na zona periférica de Roma, passeando aos ésses pela estrada.

A minha dor no pescoço e as últimas da meteorologia apontam para o regresso da chuva ao país. Hoje já choveu em Lisboa. E deixei no Alentejo um céu muito grávido.


quinta-feira, fevereiro 03, 2005

 

“Não importa nada, nem o disco do Paul Simon…”*




 

Paul Simon e Caetano Veloso.

Dois discos do princípio dos anos setenta com meses de diferença, ou talvez mesmo coincidentes no tempo. Os dois ostentam o nome do autor em título assertório, bem como o pêlo da indumentária. Vê-se que fazia frio nos dois aquandos. Caetano nos idos do exílio londrino, com pose e estilo de mártir. Paul Simon é fotografado (imagino) no Central Park, no rigor urbano do Inverno Nova Iorquino.

Coincidências que a baixa-shiatsu propõe à gemeologia para estudo.

*de uma letra do Caetano Veloso


terça-feira, fevereiro 01, 2005

 

Momento Zen

Novas direcções.

Nas linhas da tua mão, nas ondas do teu cabelo cor de laranja. Se faz frio em Lisboa é para que as manhãs amontoem certezas frescas à nossa porta. Compramos o jornal. Bebemos café na Serra Nevada. Saímos de autocarro mas é como se fossemos a pé, ao sol, com as certezas frescas da manhã: a invenção do amor por toda a parte. Eu de cachecol tu de sorriso e óculos escuros – meio Amália, meio Pop del Arte.

E detestas ser fotografada, ser fotografada até assim, em texto depositado em blogue. Mas eu insisto em catalogar a tua presença, e cheiro, e o crime de seres tão linda dentro dos meus dias. É a minha pequena atitude reaccionária: querer internacionalizar a minha felicidade matutina, o meu suspiro na tarde, a maneira como faz Verão nestas noites frias.

Arrisco. Espalhar o teu nome pelo mundo.

 

O concerto catalogado


"aqui ainda podemos ter um jeito marítimo"
(dA invenção do amor e outros poemas. Daniel Filipe)

 

a invenção do amor

e outros poemas
(de Daniel Filipe)


Um pequeno livro em uma livraria.
Desde há dezenas de anos sendo comprado por amantes subversivos que o lêem de uma só vez. Pelo menos duas gerações: a dos meus pais, a minha, já leu e inventou o amor com carácter de urgência.



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