segunda-feira, fevereiro 07, 2005

 

Dripping

Eu não compreendia grande coisa do mundo. Falo de noções geográficas e o que seria isso da Europa, dos países, dos nomes dos países, da distância dos países, da língua das pessoas dos países. Pensava que choravam numa língua diferente, que sorriam noutro idioma. Hoje tenho a certeza, sem a ter, que era Viena da Áustria naquelas fotografias azuladas dos anos setenta. Praças, edifícios, monumentos, automóveis em fotografias de, talvez fossem, manuais escolares.

Agora outra imagem: outro quadro: aquelas tardes de calor e o meu corpo de cinco anos (o mesmo corpo coevo à descoberta das fotografias do mundo) de têmporas suadas e pés descalços, brancos, no cimento do quintal das formigas, dos pássaros e dos meus avós, na hora em que os adultos desistem na sombra dos quartos entre os noticiários modorrentos da Antena 1. Por vezes a rádio resvalava para Marrocos ou para a Espanha dos “poetas andaluces de ahora”, em AM encantatória. Era magnifico assistir a essas sestas mas lá fora, sozinho, as mãos inchavam de calor e eu estava vivo.

Estava vivo, suado, periférico e o sangue escapando pelo nariz era um ritual que entretinha não raras vezes a minha infância em tronco nu e pente quatro. Hoje, na minha folha de papel branco, no meu momento, na minha mesa de trabalho, nos meus cigarros Amsterdamer, na minha “ciência do adeus” sobre a toalha de padrão quadriculado, no Paul Auster, nos santos populares, na máquina de escrever – que se impõe contra a eficácia eficiente do portátil, na minha casa pequena, quente, onde “te recuerdo Amanda”, onde preparo as viagens e me inicio na arte da cozinha e onde Louis Armstrong acerta no swing das noites tristes, lembro a bela imagem desse sangue gota a gota, vermelho, pingando praças, edifícios, monumentos e automóveis dessas Vienas, ou dessas Romas, ou dessas Pragas.

O meu avô dormia numa ladainha árabe, sem princípio nem fim.

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