segunda-feira, fevereiro 07, 2005

 

Enunciado para um desenho vertical

Faz crescer qualquer coisa azul dentro do peito e vai abrindo essa segunda camada de pálpebras que tens entre a alma e o sol. Convém sempre estar munido de memória, de mentiras e de verdades e arranja também um pouco de vento. Põe-te sozinho.

Se fores homem deixa crescer a barba, se fores mulher encosta simplesmente as mãos a uma árvore, cheira esse tronco. Que não te ocorra nada para dizer. Homem e mulher, as palavras não servirão de nada e o desenho começa nas mãos que começam no peito, que começa. Assim, serve-te do peito e das mãos para encontrar o desenho. Escolhe uma imagem. A imagem pode ser violenta, pode não ser bem uma imagem, pode ser um som, ou um cheiro, pode ser o resumo da claridade que te moldou a infância, pode ser o esforço de te lembrares disso tudo, mesmo que tudo isso esteja já esquecido. Depois desenha e fica sentado. Senta-te e desenha. E depois desenha esse desenho em pé, vertical, silencioso, sem que falte desenho ao desenho, sem que te mates nisso. Podes desistir em qualquer momento, não há problema nenhum nisso. Desistir ou morrer antes do desenho já é qualquer coisa e, sem que o saibas, pode ser esse o teu melhor registo. Porque o registo é-o sem ter que deixar marcas no mundo. Sem ter de ir daqui para o futuro com corpo visível. Ao desenho regista-o sempre nesse limiar do que é e não é e do que parece, porque tudo existe.

E quando já for bem alto o teu desenho, subindo, elevando-se, deixa-o onde está para que lhe dê o vento. Aqui, o mundo acaba e recomeça sem que dês por isso, e compreendes que o mundo acaba e recomeça sem que dês por isso. Se fores homem com barba, se fores mulher com árvores, se fores pessoa que desenha porque a noite.

Encontra uma saída. Experimenta agora qualquer coisa menos concreta. Por exemplo, andar de bicicleta, escrever uma carta, pôr um CD na aparelhagem. Faz um desenho horizontal ou um desenho diagonal, qualquer coisa que desconcerte todas as tuas certezas, e as minhas. Para quê ter um desenho vertical ao vento? Para quê este enunciado? Para onde vai a dança quando a bailarina termina? Faz este género de perguntas. Quando deres por ti a noite é enorme, o desenho não para de crescer e há uma música, um piano triste. É provável que a bailarina durma.

Mas a manhã regressa, o vento muda de direcção, os automóveis continuam, dando certeza ao avançar das horas. O desenho coalha na alba. Ouve o barulho das pessoas em direcção aos empregos (ya que de algo hay que morir). Sai para a rua e vai ver isso. Entra nas lojas, assiste ao comércio e aos comerciantes, entra na praça onde vozes apregoam legumes e bocados de mar. Olha nos olhos de todas as pessoas que cruzarem o teu caminho. Sente o cheiro a pão em algumas ruas. Olha velhos e crianças, nos seus rituais, nas suas vidas, lembra-te do teu lugar no mundo. Talvez te apeteça sorrir.

Dedica o desenho aos teus contemporâneos.

Comments:
estou a comer uma tangerina no "Mundo". Talvez te apeteça rir.
 
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