sexta-feira, fevereiro 25, 2005

 

Raros Cafés de Lisboa (1)

Bar Venezuela Café Restaurante. Mas até o Senhor João que está à frente do negócio se engasga com o nome. É Café Venezuela, mais nada, e fica no coração de Campo de Ourique, Rua Coelho da Rocha (a do Pessoa) perto do Mercado. Entrei lá ontem pela primeira vez. Já andava a topar o sítio: um grande toldo, meio gasto; a entrada de café antigo; e aquele nome, que ali, num bairro de Lisboa me soou deliciosamente descabido, exótico. Um nome daqueles prometia um grande Café. Tinha potencial.

Passados uns dias entrei nele. Ia preparado com um recorte de jornal em que vinha uma notícia recente sobre um país que se chama Venezuela, sabem? Fica na América Latina e tem um presidente que se chama Hugo Cháves, que é um filho da puta (para escrever bem e depressa). A Venezuela tem vivido tempos difíceis. Grande parte da América latina vive, faz muitas décadas, sobre a égide desses Governantes da América Latina. A designação é pejorativa, vejam.

Entrei no café, pedi qualquer coisa para comer e sentei-me na mesa do fundo. Puxei do portátil (que aprendi a gostar de utilizar em mesas de Cafés e em jardins ocasionais) e a ideia era escrever um texto que fizesse a ponte entre a actualidade política Venezuelana e este Café antigo perdido no tempo e num bairro como o de Campo de Ourique. Acabei por não conseguir escrever nada para além das duas primeiras frases, que até já nem são aquelas que ali em cima leram.

O que aconteceu foi que, ia eu a meio da sandes de queijo, já de portátil aberto e mãos prontas a teclar o que os meus olhos viam, quando se aproxima certo indivíduo magro e escanzelado. Espreita (sim, ainda não é habitual essa coisa de abrir computadores em certos estabelecimentos) e começa o observador a sentir-se observado e a ser objecto, também ele, de estudo. Queria saber quem eu era e o que fazia ali, se era jornalista ou assim. E eu ia dizendo ao que vinha, ia dizendo do meu interesse em encontrar uma ligação entre o País e o Café, tendo como ponto de partida a notícia recortada e aquela mesa ao fundo onde pouco depois convidava o meu inesperado interlocutor a sentar-se.

A conversa comeu o texto (e ainda bem). E a conversa pediu cerveja e tremoços e mais cerveja. Fiquei a saber mais desse Café e um pouco da história do indivíduo que a contava. Frequentava o Venezuela desde miúdo: era o único sítio aberto até às quatro da manhã em Campo de Ourique, com as melhores sandes de carne assada do país. Quem o frequentava fazia-o para dizer mal, isto no tempo ainda do Salazar. Iam lá jornalistas, escritores, pintores, bêbados, quase todos, comunistas, alguns. Ele era um puto na altura, um dos meninos bem que vinha à procura de um pouco mais na Lisboa amordaçada daquele tempo. Nomes? Stau Monteiro, Assis Pacheco, uns cineastas obscuros, gente das letras. Havia um que era pintor comunista ortodoxo, um homem com quem era impossível comunicar. A mulher com quem casou matou-se duas semanas depois do casamento, atirou-se da janela. Esse homem desenhava e bebia a noite toda. Falamos de cinquenta imperiais por noite, uma coisa monstruosa. Desenhava com as beatas e com os fósforos queimados nas tolhas de papel, usava as manchas de café e cerveja juntamente com a cinza. Todas as noites ia para o lixo uma obra de arte.

Devo ter ficado na conversa umas três horas, talvez quatro. Tive que sair, quase fugir dali para fora. O homem parecia pronto para falar mais três, quatro horas, e já não importava se a CIA conseguiria ou não assassinar Hugo Chávez (como o próprio tem vindo a advertir). Venezuela era aquele Café em Campo de Ourique, Venezuela era um Café e um bairro inteiro. E cabiam nesse bairro que era um país da América Latina, todas as conversas embriagadas (ao mesmo tempo lúcidas) que se podem ter entre um homem de cinquenta e um anos e um rapaz de vinte e cinco. Interessado.

A conversa já ia na Velha Goa. Tinha dado a volta ao mundo e estávamos de regresso a Lisboa e ao país em 2005. Mas uma questão prevalecia: porquê Café Venezuela? De onde veio tal nome? Parece que uma das pessoas que abriu o estabelecimento arranjava (ou facilitava) vistos para a Venezuela. Explicado.

Já sabem as coordenadas. Que tal uma cerveja?

(O Café Venezuela sofre de um mal que infelizmente é generalizado: tem televisão. Mário Cesariny deixou de escrever porque só o fazia na rua e em cafés, e como a partir dos anos sessenta começaram a aparecer os primeiros televisores nos Cafés de Lisboa, desistiu, já não era capaz…)

Comments:
Maria, a loira exuberante quarentona cá do sítio, passa tardes inteiras no café do bairro a rir alto. o seu mais recente record é de 60 minis numa tarde
 
esta é uma crónica memorável!
JP
 
frequento este café há muitos anos e ainda desconhecia grande parte destas revelações, muito menos contadas desta forma.
obrigado ó manso!
 
Li, só agora, a do Venezuela, sou um "certo indivíduo magro e escanzelado", o pintor, que era desenhador de Arquitectura era o Casquilho. Os obscuros eram o Zé Vitório da RTP, o José Nascimento e mais raro o Francisco Manço. Boas
 
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