quinta-feira, março 31, 2005

 

Contributo para o blogue Universos Desfeitos

Um país (incompleto)

Não se sabia ainda nada, era o princípio do mundo. Todo o alfabeto ainda dentro da carga das canetas bic. Nas mesas dos cafés dormiam homens honestos, ficavam ali, quietos, imóveis, parados. As mulheres e as mães buliam com as suas mãos, construíam filhos que depois inventavam mães. Havia casas e dentro delas uma paz de mulheres e homens e filhos serenos, dormentes, impávidos. Dentro das gavetas da mobília das casas, pouquíssimos segredos ou tesouros poderiam importar ao mundo. E todos sabemos que a riqueza de um país tem relação directa com a natureza das coisas que se guardam nos secretos da mobília, nos confins de sótãos e caves, no fundo de armários, de cornucópias velhas.

Ele veio então, prateado na alba. Ao fundo da estrada principal deserta, aproximou-se com seu passo metálico de robot. Dentro das casas ainda uma multidão de gente lenta e ensonada preparava o café e as papas de farinha torrada. O love me tender do Elvis desaguava pelas casas onde crianças e filhos acordavam esquecidos de como tinha sido o mundo no calor de ontem.

O país era uma estrada principal, alguns pomares em volta, cheios de silêncio, frutas, insectos, frutas cheias de silêncio doce, insectos alimentando-se dessa polpa. Parecia o Verão interminável nesse sítio. Eram as estiagens, a preguiça invadia os corpos que invadiam as sombras na hora desse calor imenso, claro, doendo. As crianças e os filhos brincavam com água. As motorizadas eram ao passar na estrada pequenos bocados de violência, mas até os pássaros as esqueciam no momento em que desapareciam no fundo da estrada. E logo o som de mãos em água. Os pássaros eram bocados pequenos de ternura, até que a noite caía sobre os quintais e as mães e as mulheres, as crianças e os filhos, os homens e os pais, todos preparavam o corpo e a voz para o sono. As mãos alisavam linho e flanelas, as mãos levavam a ceia à boca. As horas iam ficando mais escuras e mais frias.

Quando a manhã cosia o seu nevoeiro frágil aos ramos das laranjeiras, era Inverno por todo o lado. Quando os motores gripavam e as folhas das árvores caíam solenes no chão do país, quando de manhã só as folhas perenes se mantinham no alto desse nevoeiro frágil, muito branco, era Inverno por todo o lado.

Mas vinha esse homem lá ao fundo sem que nenhuma motorizada violentasse a manhã debaixo de água. Vinha de outro tempo e do Sul, era o amolador de tesouras com sua musica ao longe. Não vinha nem circo, nem feira, nem o cinema ou biblioteca ambulantes, nem o teatro nómada, nem saltimbancos, nem ciganos, nem profetas, nem santos ou fazedores de chuva, não vinham comerciantes, vendedores de sapatos, televisões, gelados, não eram soldados, ou filósofos, ou putas, nem vinha o salvador de pátrias esquecidas. Era apenas um talvez galego amolador de tesouras. E o homem vinha sozinho com a bicicleta pela mão. MAS PARECIA QUE VINHA DA BATALHA, ferido, a armadura de banda.


Abraço

quarta-feira, março 30, 2005

 

Raros Cafés de Lisboa (8)

O Adriano deve andar aí pelos oitenta. O lugar cede cotas em aviso afixado na grande vidraça onde bate o sol potente deste fim de Março. Quanto ao sol, o cronista resolve com uma cerveja preta fresquíssima e pede ao velhote para fechar metade da cortina.

Imaginem uma esquina calada ao sol, a esquina da Eduardo Coelho com a de São Marçal, perto do Príncipe Real e da Praça das Flores. É aqui que fica o pacífico Café e Restaurante Guanabara. Lugar também de bocejos e cariocas de limão. Compõe-se de zona de Café e uma sala restaurante que parece nem estar no activo, mas é claro que está, ora essa!

Vamos a uma descrição sumária do local: azulejos diria que dos anos 60; embora a maioria do espaço seja forrado a madeira – tecto e paredes; a tal vidraça para sol e cedência de cotas; cinco conjuntos de mesas; um balcão com seus quatro bancos fixos; um friso entre o tecto e as paredes onde pontilham espaçados quadrados verdes em fundo branco; uma sala de refeições onde ainda não fiz mais que espreitar aqui da mesa perto da janela; sala essa a meia cave, também ela forrada a madeira e onde (coincidência?) uma televisão passa sempre que cá venho a novela Gabriela.

É sempre assim: apareço e passados uns minutos ligam a televisão e começa a canção da Gabriela seguindo-se a fala das personagens do Jorge Amado. O velho Adriano arrasta os seus oitenta entre a porta da rua e uma das mesas onde se senta atrás do Correio da Manhã. Sendo meio surdo, o Adriano nunca acerta à primeira na cerveja certa.

Pago a cerveja e sigo a seta enferrujada que aponta ao Príncipe Real. Antes de sair pergunto ao Senhor Adriano porque se chama este Café Guanabara? O velhote sorri orgulhoso e responde que o nome lhe trouxe o pai que esteve emigrante no Brasil.

terça-feira, março 29, 2005

 

Toda a gente passou horas em que andou desencontrado...*

Acontece muito a quem usa a Carris.



*de uma letra de Sérgio Godinho

segunda-feira, março 28, 2005

 

Outro audiovisualizado

Aí do lado esquerdo, Johnny Cash na secção. Se ficarem saturados é desligar as colunas... porque o homem vai fazer render o peixe durante uns dias.

Abraço e Link

domingo, março 27, 2005

 

De Assis Pacheco “MEMÓRIAS DE UM CRAQUE”

Saiu (ou está a sair) pela ASSÍRIO & ALVIM um novo livro póstumo de Fernando Assis Pacheco: “MEMÓRIAS DE UM CRAQUE”. É um pequeno livro que reúne um conjunto de textos que de Abril a Novembro de 1972 saiu nos sábados do Record.

Organiza Abel Barros Baptista, posfacia Manuel António Pina. São pequenas crónicas da descoberta e prática do futebol (mas não só) na Coimbra dos anos 40. Escrito na primeira pessoa, embora se refira a si como “o craque”, e com um humor e qualidade narrativa raros entre o que se lê por aí.

Assis Pacheco, jornalista, poeta, escritor de romances (poucos mesmo assim), bom garfo, pai imenso, morreu quando ia fazendo cada vez mais da escrita literária a “profissão dominante”. Ainda está para aparecer quem mexa na Língua tão bem como ele.

 

(baixa-) Schiavo

Tentei abordar este tema primeiro dentro da minha cabeça, depois esboçando algumas frases, e deparei-me com uma dificuldade enorme em arranjar as palavras certas para um assunto tão complexo e que mexe com muitas sensibilidades. Não vou escrever nada sobre o assunto, apenas apontar o que alguém soube dizer melhor do que eu. (Por ter tido problemas com o Blogger o link vai no título).

 

Quirguistão

Boa sorte!

sábado, março 26, 2005

 

Fez sol o dia inteiro em Ipanema*

Primeiro comecei por escrever de noite e ler de dia, deixando que a pintura se fizesse apenas nas horas que sobrassem. Aprendi logo a dividir o ímpeto de pintar do de escrever. Fiz assim: escrevia durante todo o Inverno e recomeçava com o trabalho da pintura e do desenho assim que começassem as estiagens. Tinha o tempo das estações intermédias para a gradual mudança de ofício.

Sou uma pessoa organizada, estou atento às necessidades interiores e deixo que o clima interfira com os seus ciclos nas minhas acções. Sucessivamente. E aprendi a traçar percursos sazonais, ascendentes e descendentes, uma espécie de transumâncias que visassem perseguir o melhor local para o que me propunha fazer. Assim, tinha preparado para o tempo da escrita umas águas-furtadas na cidade, e para o tempo do desenho uma velha cozinha de quintal na zona da lezíria.

Devo dizer que estou bastante apreensivo com as recentes transformações climáticas. Pensei como solução na hipótese da diáspora. Ou então recomeçar simplesmente com o saxofone.


*do poema sujo (1976) de Ferreira Gullar

quinta-feira, março 24, 2005

 

Azul

Até agora só recebi críticas. O próprio Morais Sarmento já me telefonou a dizer que entende como traição o facto de ter mudado para azul a cor do cabeçalho. De lembrar que o blogue (Força Interior) do Morais Sarmento, aquando da campanha das últimas legislativas como cabeça de lista por Castelo Branco, tinha um tema gráfico semelhante ao que este ostentava até ontem.

Mais críticas? que este azul é muito frio. Mas não vem aí um Verão impossível? Tentei criar um espaço onde se possa estar ao fresquinho…

Espero receber mais opiniões avassaladoras e deixo este post como espaço de comentários. Podem também opinar sobre a secção de audiovisuais, mostrem-se activos e elementos decisivos na manutenção deste pequeno blogue. Como diz o outro: “Mexam com esta merda pá!”

A secção de audiovisuais tem tendência para começar a chatear por estar sempre presente em repetição. Peço-vos que desliguem as colunas assim que sentirem necessidade. É possível que fique uns dias sem postar nada. Estarei pela Beira Baixa. Espero encontrar palavras vossas por aqui quando voltar. O que será em breve.

Até já! Boa Páscoa e tal…

O AGIOTA DESTE BLOGUE

 

Secção de audiovisuais

A baixa-shiatsu experimenta pôr a público a sua secção de audiovisuais. Fiquem por uns dias na companhia dos Belle & Sebastian com o videoclip DIRTY DREAM NUMBER 2.
Podem encontrar mais dos mesmos aqui.

(que se lixe. este vídeo é para ti senhora do monte. por estarmos quase em Abril. por teres passado um dia por aqui)

 

Vício

(coisas da bolacha)

Ainda o mesmo objectivo: fumar muito menos (o que quer que isso seja)


ELA ELA

Música: Arto Lindsay (peça improvisada na guitarra) e Caetano Veloso (composição sobre a peça improvisada).

Letra: Caetano Veloso
.

Ele ela
Ela é ela
Ela é uma
Ela não fuma mais
Ela fumava muito mas não fuma mais
Ela é tão jovem
Ela gosta dessa moda de não fumar
Ela está comigo em Manhattan
E nós vimos o show de Sting no Madison Square Garden
E ela disse
Hoje em dia acendem poucos isqueiros na plateia porque pouca gente fuma
Ela é tão jovem
E tem saudades do tempo em que muita gente tinha isqueiro
Eu tenho amor por ela
(o cigarro é uma invenção dos índios da América do Sul)
Ela é ela
Ela separa as pernas e vem outra.

quarta-feira, março 23, 2005

 

"Memórias de um craque"

De como fui metido num campeonato… e não foi bonito:

O passe era para mim. O esférico vinha na minha direcção. Recebo-o percebendo que isso me traria toda a atenção. Tinham-me metido naquele torneio da terceira classe da escola primária por falta de gente para jogar. Era um campeonato organizado pelos professores e disputado entre as diferentes salas do meu ano. Não que quisesse ou gostasse de jogar, ou que tivesse algum valor.

E estava a correr bem o jogo. Limitava-me correr vagamente atrás dos outros que disputavam a vitória. Ninguém me passava a bola. Havia que gerir a coisa até que se lembrassem de dar por terminado o jogo. Mas, talvez por desatenção minha, vejo a bola nos meus pés e uma claque gritando o meu nome, um caminho interminável até à outra baliza, nenhuma capacidade para devolver prontamente o passe (se possível a alguém da equipa).

Não me lembro de mais nada! Devo ter recalcado o que se passou a seguir. É a última imagem que guardo da primeira vez que joguei à bola. Uma imagem de cima, como se o meu espírito se elevasse para ver o meu corpo de criança em apuros: calção e camisola de manga curta brancos, pele quase tão branca como a roupa, cabelo cortado a pente quatro, um pequeno ser perdido no cosmos e ocupando a zona do meio campo no corredor esquerdo (onde por acaso me encontrava). Apaguei o resto.

Sei que mais tarde voltei a jogar e comecei a gostar de o fazer. Nunca desenvolvi a técnica mas corria que nem um desalmado. Com muita pena minha acabei a escola primária sem um único golo no currículo. E toda a gente sabe da importância que nessa altura (do campeonato) isso tem junto das raparigas.

Mas posso gabar-me do facto de a minha estreia no futebol ter tido a particularidade de ser arbitrada pelo grande juiz do futebol português (que naquela altura já estava em final de carreira) Hélder Dante, que era professor ali na P3 de Almeirim.



Esta pequena crónica aparece porque comecei a ler o recentíssimo livro (o terceiro póstumo) do Fernando Assis Pacheco: Memórias de um craque, pela Assírio e Alvim.

Dedicar-lhe-ei mais tempo num post futuro.

 

Raros Cafés de Lisboa (7)

Mel e silêncio na Pastelaria Lua Nova. O primeiro vende-se. O segundo encontra-se quase sempre disponível no pequeno espaço do Café. Para quem toma o pequeno-almoço próximo das horas do grande, neste Café poderá beber o seu leite Vigor sem inalar o cheiro dos fritos saturados das refeições. Como não faz serviço de restaurante a Pastelaria Lua Nova, na Rua Domingos Sequeira não sofre do mal de ser frequentada pelas pessoas aflitas dos almoços ulcerosos, on the rush.

De resto tem o encanto de ser Café perdido no tempo. Não ter televisão ajuda a apreciar o eléctrico 28 subindo para os Prazeres ou descendo na direcção da Estrela. Há também a imagem desoladora do arruinado Cinema Paris morrendo, morto e amarelado, do outro lado da estrada.

O senhor Mário oferece rebuçados às crianças que vão com as avós habituais. Leva à mesa as meias de leite e as torradas do lanche. E não fala muito o senhor Mário, fica sempre suspenso numa espécie de timidez dividida com o estar atento à Antena 1. Vai lendo o jornal, vai gerindo a casa.

E as pessoas que entram no Café têm o ar de quem o faz há anos. Sentam-se os velhos, preferem ficar de pé ao balcão os novos, de passagem. Eu sou dos novos, mas sento-me. Fico ali a ler, se for sozinho, a conversar se levar alguém. E há uma luz calma e especial que entra no Café. De repente tem-se tempo (um tempo que escorre meloso) nem que seja para ver o velho Cinema desaparecer na geografia sentimental da cidade.

 

Começo as estiagens por aqui

- Neil Young, Unplugged
(às voltas de bicicleta pela tarde competindo com os primeiros besouros do estio)

- Robert Schumann, Estudos Fantásticos
(contra qualquer serão televisivo)

- Keith Jarrett, The Melody At Night, With You
(à noite todos os gatos são parvos)

- Papa M, Whatever, Mortal
(e se este fosse o primeiro Verão?)


A baixa-sorumbática vai tentando gerir esta melancolia.

terça-feira, março 22, 2005

 

As coisas no lugar certo

Agora que vão ser retirados grande parte desses belos cartazes que proliferam por Lisboa, resta perguntar se outros os substituirão. Se sim, porque não alguns com este conteúdo:

Santana Lopes

Queriam acabar com ele.

Nós vamos
Inclui-lo.

Câmara Municipal de Lisboa

sábado, março 19, 2005

 

A hora da bica

Retomarei, não tarda, com a série sobre os Cafés de Lisboa. Mas é que nem tenho tido tempo (leia-se dinheiro) para abancar nos estabelecimentos...

[Este bloguista (perguntem ao Sócrates) vive a baixo do limiar de pobreza. Chegará o post em que vos deixarei o meu NIB].

 

Agência de detectives Paul Auster

Paul Auster em Lisboa, em Abril (Culturgest sala 2 dia 29 às 21h30)


O homem levantou-se cedo no desconforto de um quarto de hotel em Lisboa. A luz (muito se tem dito dessa luz!) instalou-se sem pudor nesse quarto alto de hotel com cidade em baixo – também a cidade reflectia como espelhos essa claridade abrupta – “que cidade tão branca, e parece tão lavada aqui de cima”, pensou.

O homem, assim, nu (uma nudez americana) veste um roupão vermelho – o mesmo que usa na sua residência Nova-iorquina e que aqui lhe empresta um pouco a sensação dessa familiaridade que ficou depois do mar (sensivelmente na mesma latitude onde agora está, será?). Veste o roupão vermelho de um cetim usado, usa-o aberto e põe-se à janela a ver a Lisboa amanhecida. Pensa: “que coisa bonita e que saudades tinha já! Para que lado é o rio? O Tejo…”

Vai até ao telefone. “Bom dia, podem trazer-me o pequeno-almoço? É possível arranjar-me também uns Pasteis de Belém? Muito Obrigado. Bom dia! …Ah! e o New York Times, têm? Obrigado”.

Um banho frio para lembrar Brooklyn neste último Inverno, ou a fome e outras privações que passou na Europa antes de ser um escritor famoso. A barba ficará assim por fazer “não me apetece mostrar-me demasiado aprumado”. Um ar desarrumado de escritor da Geração Beat, que às vezes gosta de parecer, embora saiba que é demasiado novo e com bastante saúde ainda para o conseguir. Lá vão os tempos de assumida marginalidade e desrespeito pela mentirosa higiene social.

Tomou o pequeno-almoço, vestiu-se lentamente, fumou um cigarro. Olhou o jornal e pensou telefonar para casa… “não, é demasiado cedo…”

Ainda é cedo e a pequena comitiva responsável pela sua presença aqui tardará a chegar. Decidiu descer até a recepção e experimentar a manhã. “Olá! chamo-me Paul Auster, estou no 815. Espero umas pessoas da (pausa para lembrar o nome) Culturgest que chegarão entretanto, estou sem telefone e vou dar uma volta. Espero voltar antes deles, mas se me atrasar diga-lhes que…”

 

Problemática da Spoken Word

Encarnar ou desencarnar a palavra? Falar ou dizer a palavra? Com o corpo ou com a cabeça? Com silêncios ou com conteúdos? Nos salões ou nos terrenos da lumpen?

De que maneira?

Com que heroísmos teatrais?

Um homem ou uma mulher farão emergir de que fundo a palavra?

(significado cor de vento)


VAMOS LÁ DAR A VOLTA AO TEXTO!

 

Surto, novamente

De gente lendo no metro. Aquela saga do Dan Brown que nunca mais acaba.

E o resto?

Tanta coisa para procurar no escuro...

...do metro.

sexta-feira, março 18, 2005

 

Desbloqueador emocional

Oiço Frédéric Chopin (obras para piano) e estou quase a chorar.

Não choro há meses. Já nem sei o que isso é.

Obrigado senhor compositor polaco da primeira metade do século dezanove.

(interpreta o pianista: Ronan O'hora)

 

Mira una niña

A não perder o som que vai estando por aqui.

quinta-feira, março 17, 2005

 

Algumas palavras sobre o calor de hoje

Subi pela primeira vez ao elevador de Santa Justa.

É daqueles sítios em que os pombos à força de tanto privarem com os turistas já só falam línguas estrangeiras.

Pus a minha mão na rede (lembrando-me do Cesariny a preto e branco) estava virado para o castelo.

Desci com o cheiro da eslovena mascando a cidade.

Suei cá em baixo.

Segui em manga curta na direcção do rio.

 

Novas

Entra o Murcon.

 

Flirt entre Xana e César Monteiro

“Hora a hora Deus melhora”

e já agora
“A adversidade aguça o engenho”

Tenham um muito bom dia!

 

2º Ponto de situação

A baixa-shiatsu tem uma média de 46 visitas por dia, ultrapassou as 600 desde o dia 3 de Março e só ontem deve ter tido perto de 90 visitas.

Estou contente (é claro que estou contente) e assumo-me como ingénuo ao ponto de não querer perceber que nem é assim tanto, como já me disseram.

Mas a questão é que nada fazia prever que eu conseguisse enganar mais de 10 pessoas, e durante tanto tempo. Nem que eu próprio tivesse a paciência necessária para não deixar a coisa em auto-gestão.

E a baixa-shiatsu cá está, sem grandes correrias, postando sempre que pode e tem. É claro que vou divulgando o blogue sempre que me lembro. Não estou serenamente à espera dos leitores. Nem das leitoras…

Vou tentando (às vezes sei que não consigo) postar alguma coisa que valha a pena. Para isso, tento não cair no erro de me debruçar sobre o meu umbigo e o meu pequeno mundo. Nos dias em que não saio de casa, ou nos dias em que não compro o jornal, dificilmente tenho alguma para dizer.

Por isso, aprendo a estar mais atento ao que se vai passando por aí. É um esforço delicioso, este de roubar assunto à cidade, ao mundo. Lisboa faz-me mais sentido agora.

Tenho os meus ídolos na blogosfera, e tenho os meus amigos, e tenho o meu irmão (essencial à baixa-shiatsu, é o bombeiro dos quase incêndios que por aqui vão tentando deflagrar, sem ele este bairro já tinha ardido à semelhança do outro, o Chiado). E todos eles, mais aqueles que vou descobrindo, vão sendo os inspiradores deste meu.

Mas não me iludo, este suporte é limitado e não interessa. Não somos pessoas mais interessantes e sofisticadas por termos blogue, ou pior, por termos um blogue carregadinho de leitores.

Como escreve o responsável pelo blogue Ideiateca de Bagdad: “não me parece que haja alguma coisa a dizer. Na blogosfera, vales pelo teu último post...”

Ou nem isso…

 

Reclames (1)


As estiagens

 

Reclames (0)


Ainda mexem!

quarta-feira, março 16, 2005

 

Entre a Francisco Metrass e a Almeida e Sousa


 

Que acontecerá ao edifício do antigo Cinema Europa?


Hipóteses:

- Demolição
- Igreja
- Espaço cultural e sede da Junta de Freguesia do Santo Condestável
- Estúdio de televisão
- Espaço alternativo de arte contemporânea
- Residência para a companhia de teatro dos Artistas Unidos
- Silo automóvel
- Centro comercial
- Sala de chuto
- Cinema
- Museu
- Sede da Associação dos Amigos do Tango
- Túnel do Marquês
- Casa da comarca da Sertã
- Discoteca
- Bar
- Bar Discoteca
- Filial lisboeta do PND
- Nada disto
- Nada de todo

 

pág.35 The Best American Poetry - 1995

Rapariga Escrevendo uma Carta



Um ladrão dirige-se ao museu ao volante da sua carrinha preta. O guarda-nocturno diz Desculpe, fechado, tem de voltar amanhã. O ladrão espeta a ponta da sua faca na orelha do guarda. Não tenho a noite toda, diz, preciso de alguma arte.

A arte é para o prazer, diz o guarda, não para a posse, não se pode qualquer coisa, e então a fita-cola está a tapar-lhe a boca. Não te preocupes, diz o ladrão, estamos do mesmo lado.

Encontra os Mestres Flamengos e vai direito a um Vermeer: “Rapariga Escrevendo uma Carta”. O ladrão sabe o que está a fazer. Tem uma licenciatura. Corta a tela, desde a margem da prateleira onde estão as saladeiras, até ao quadrado de luz do Sol, projectado sobre os ladrilhos pretos e brancos do chão.

A rapariga não ouve isto, está tão absorta escrevendo a sua carta, não repara nele até tarde demais. Ele está na imagem. Sentado junto à harpa. Toca a Sonata em Mi Menor de Domenico Scarlatti, que um dia fez o coração dela bater ao ponto de ter ultrapassado a harpa correndo à frente, onde ficou parado à espera que a música recuperasse terreno.

Ela trabalhou nesta carta durante trezentos e vinte anos. Agora está ali um homem, e apesar de vir vestido com umas roupas estranhíssimas, vai tocando harpa para ela, só para ela, não há mais ninguém vivo no museu. O homem a quem ela escrevia está morto – tempo para parar e pensar nele – o artista que a pintou está morto. Ela própria deveria estar morta, mas tem ouvido para a música e um coração que corre pelas escadas acima do Museu Gardner, com um homem que conhece apenas há alguns minutos, mas é verdade, parece-lhe a vida toda.

Por isso quando o ladrão lhe entrega a faca e diz tu recorta as pinturas para fora das molduras, tu enrola-as, ela fá-lo; quando ele diz tu põe outra tira de fita-cola sobre a boca do guarda para que ele páre de falar de estética, ela cola-lhe a tira de fita-cola, e quando o ladrão a senta ao volante e diz, guia, boneca, a noite é nossa, é a Rapariga Escrevendo uma Carta que guina a carrinha preta pela rampa ocidental, em direcção a Storrow Drive e depois para a Mass Pike, é a Rapariga Escrevendo uma Carta que conduz a oitenta milhas por hora em direcção a Oeste para um país que ainda nem sequer foi descoberto, com um cadastrado, uma carrinha cheia de pintores famosos e nenhum sítio para onde ir a não ser para baixo, mas para a Rapariga Escrevendo uma Carta estas coisas não importam, tem uma cerveja na mão livre, segue pela estrada fora, é real e está apaixonada.

William Carpenter
( pág. 35 The Best American Poetry - 1995 )


versão portuguesa de João e Rosarinho Assis Pacheco.

 

Calinada (?) à Cais do Sodré

Momento Zen na carreira nocturna 202 do Cais do Sodré às 3 e 27 da manhã.

Indignação pelo preço excessivo da tarifa da Carris (1.10€ por viagem, saiba-se):

1º Drogado – “O Governo de Portugal é a individualidade mais chula da Orópa!”

2º Drogado – “E a Rodoviária pertence-lhe!”


(ver também cabeçada à Cais de Sodré)

terça-feira, março 15, 2005

 

Contributo para o blogue Ideiateca de Bagdad


 

a arpa de ouro do amor

 
Pequeno quadro comprado por um GNR português apaixonado recém regressado do Iraque.

O objecto foi oferecido à minha prima.

Mas agora pertence-me. Só porque a oferta me arrebatou mais a mim que à prima, que o recebeu com desdém…

Não conheço o militar pessoalmente, mas imagino-o como uma personagem triste de um romance de amor em tempo de guerra. E não posso deixar de o imaginar na perigosa claridade iraquiana comprando lembranças, também ele querendo fazer explodir no peito da mulher distante o armadilhado carro bombista do Amor.

Comprova-se: os GNR também se apaixonam.
Comprova-se também: a minha prima não se comove com o facto.

 

Vício

(coisas da bolacha)

Objectivo: fumar muito menos.

Dois cigarros na madrugada de ontem (tinha de ser, “crise conjugal”).

Cinco cigarros na noite de hoje na Bota Velha (tinha de ser, meti conversa com (…) começando por pedir um cigarro)

Exorcismo:
“se fumar não matasse eu não fumava”

segunda-feira, março 14, 2005

 

Santana nas alturas

Ele voltou! Recomeçaram as “borboletas no estômago” dos lisboetas…

 

Série nova na baixa-shiatsu

Para breve:
Fotografias sobre os "melhores" anúncios, cartazes e publicidades que estão pela cidade.

As pilhas da máquina digital estão já a carregar…

 

Bodylandscapes

Rebecca Horn
Desenhos, esculturas e instalações
até 17 de Abril
CCB

 

Comércio

“Compra-te de volta”
João Pacheco

domingo, março 13, 2005

 

Nusrat Fateh Ali Khan

De auscultadores nos ouvidos pelos bairros mais antigos de Lisboa.

Fazer coincidir o Médio Oriente com a rua do Capelão.

 

Actualização blóguica (índice de valores)

Entram:
universos desfeitos
ideiateca de Bagdad
eu nas couves

Saem:
Ninguém. Gosto de todos...

sábado, março 12, 2005

 

É importante lembrar

Que isto não é um blogue. É um projecto de poesia sonora com ruídos de catarro. E muito jogo de anca, aprendido com o Nuno Moura dos Ventilan.

A baixa-shiatsu não é uma estação terminal.

quinta-feira, março 10, 2005

 

Práticas rolheiras

No Público de hoje, uma notícia que não sei se me deixa satisfeito. Está a conseguir-se eliminar o aroma a mofo que as rolhas de cortiça por vezes deixam no vinho ou nos espumantes. A nova tecnologia deixa de sorriso nos lábios os Amorins desta terra e todos os industriais ligados ao sector, imagino.

Sempre gostei de assistir àquele ritual de provar o vinho e a expectativa de saber se vai para trás ou não. O gosto a rolha permitiu a muita gente exercer o direito de devolução. O acto digno de mandar para trás um produto alterado.

"Que afinal o que importa é não ter medo de chamar o gerente e dizer muito alto ao pé de muita gente:Gerente! Este leite está azedo!"
Cesariny

 

y

No suplemento y do Público amanhã, uma reportagem importante sobre


SPOKEN WORD

 

Pina Bausch

Tive uma bisavó lindíssima de olhos azuis. Era a mãe do meu avô materno e chamava-se Eulália. Mais ninguém da estirpe herdou aqueles olhos.

Lembrei-me dela hoje, mais precisamente de um acontecimento, talvez o primeiro dos raros com que tenho sido brindado: a imagem, o gesto de um teatro primordial e secreto que escapou nem eu sei como da esfera do privado, para vir tocar no sensível que eu na altura nem suspeitava possuir.

Devia ter aí uns cinco anos e estava com ela dentro de uma arrecadação no quintal, ao pé do poço. Era uma divisão que servia para ter um tanque de lavar roupa, para ter o assador das sardinhas, para guardar a mais variada carga e utensílios. E eu lá estava, atrás dela como um gato silencioso, sem adivinhar ainda o momento da revelação, da metamorfose.

De repente, os pássaros deixaram de cantar e faziam apenas o som de saltarem de ramo em ramo passando da laranjeira para o limoeiro e do limoeiro para a laranjeira. Fez-se silêncio, que aumentou no momento em que de frente para um pequeno espelho tisne e gasto, tirou do cabelo apanhado um enorme gancho. Pude então contemplar esse cabelo branco, solto e enorme compondo, revelando aquilo que era a minha avó verdadeira.

Parada, de frente para o espelho alisando com um pente os cabelos de um comprimento insuspeitado. Muito brancos.

Pouco depois, voltou a apanhar o cabelo, num movimento rápido e fluído. Os pássaros recomeçaram no momento em que ela saiu igual para a claridade e calor do quintal.

quarta-feira, março 09, 2005

 

Acordei agora

...e daí? hã?


(foi uma longa madrugada)

 

Chelsea segue em frente.

Mourinho é tão bom que até levaria um Vitória de Setúbal à final da Liga dos Campeões.

Grande jogo de futebol!

 

Silêncio

Silêncio

terça-feira, março 08, 2005

 

Ai

200 visitas desde o dia 3 de Março!! Quem é que anda aí?

 

Dito anarquista

Hay Govierno? Soy contra

segunda-feira, março 07, 2005

 

Raros Cafés de Lisboa (6)

Varias razões para ir lanchar à cafetaria do AR.CO em Lisboa: a provável convivência com jovens artistas, alguns deles pessoas interessantes, uma quantidade generosa de gente bonita e cheia de estilo; o facto quase excepcional de não ter televisão nem qualquer tipo de transístor cantante, por vezes prevalece o silêncio absoluto, outras vezes o burburinho das conversas; de quando em vez o espaço serve para expor os trabalhos dos alunos, ou de artistas sem ligação à escola; fica situado num palácio antigo na rua de Santiago, perto do castelo de São Jorge; vai-se, por exemplo, de eléctrico 28, subindo de janela aberta para a cidade antiga com o rio em baixo ao fundo; há um raro jardim à entrada do palácio.

No tempo em que eu era estudante do AR.CO o negócio do bar estava melhor entregue. Quem era responsável por gerir o serviço de cafetaria e almoços eram umas senhoras ali da zona, muito engraçadas e que cozinhavam muito bem. Havia uma relação próxima e familiar entre as senhoras e os alunos. Agora passou para outras mãos, diria que uma pequena empresa, insípida e insolente.

A cafetaria, para além ser o ponto de acesso a salas de aulas e gabinetes, é também o acesso ao Centro de Documentação da escola. Estou em crer que qualquer pessoa pode utilizar essa biblioteca, mediante uma inscrição e, suponho, o pagamento de uma cota.

O espaço está lá, desconhecido das pessoas não ligadas ao AR.CO e merece na minha opinião uma visita a meio da tarde.

 

Língua azul

“Vacinação em massa no Alentejo por causa da língua azul

Público 07/03

Depois da língua de chegada, a língua azul.
Todas roçando a língua de Camões.

 

Raros Cafés de Lisboa (5)

Fica ali entre a rua Bernardim Ribeiro e a Ferreira Lapa, ao Conde Redondo e chama-se Serra Nevada. As circunstâncias fizeram com que o frequentasse a título de empréstimo. Acordava-se e ia-se lá tomar o pequeno-almoço ou, no meu caso, almoçar. Durou isto uma curta temporada, mas quando penso em Cafés de bairro em Lisboa penso naquele como meu. O Café Serra Nevada é um lugar especial, por ser despretensioso, honesto, meão, até. Mas com almoços muito bem cozinhados, serviço familiar e simpático, e sol.

Ao mesmo tempo que é frequentado por gente como o Eduardo Prado Coelho e António Lobo Antunes, é palco das cenas mais escabrosas que um bom bairro lisboeta pode oferecer para o deleite de escatológicos cronistas. Lembro, a propósito, aquela vez em que a porteira do prédio do lado perdeu as estribeiras e foi armar confusão com a senhora do cãozinho diarreico que no caminho para o Serra Nevada se tinha aliviado de maneira assaz e líquida pela calçada portuguesa. Um autêntico trilho com vários metros de comprimento e que acabava à porta do estabelecimento, denunciava sem sombra para dúvidas os culpados. Sendo que o cão não teve culpa nenhuma nesta embrulhada e foi, no desenrolar dos acontecimentos o animal que demonstrou mais nível.

Hades aprender a limpar a merda do teu cão!” Dizia a porteira do lado de fora. A resposta da senhora do cão era um desprezo de cigarro na mão e nariz empinado. A porteira, vermelha de ódio, continuava num “que não há direito, que hades aprender a limpar a merda do teu cão!” A senhora do cão, nada. E é então que a porteira se passa, entra no Serra Nevada, tira três guardanapos do balcão e volta a sair para (isso mesmo que estão a pensar) regressar com a papelada suja de porcaria e a esfregar nas mãos da senhora do cão.

O cão, sentado à porta, nem queria acreditar. A dona e a porteira engalfinhavam-se no meio da merda que ia sujando mãos, roupa, cara, cabelo e inevitavelmente o próprio balcão. A coisa acabou pouco depois. A porteira foi-se embora com aquele alívio que nasce do dever cumprido, imagino. A senhora do cão perdeu algum tempo no lavatório do Café a tirar porcaria da orelha, e foi-se embora também. A senhora do Serra Nevada nem sabia o que dizer. Não tinha palavras para tanto.

Mas, no mais das vezes, o Serra Nevada é lugar pacífico, onde confluem as diversas gentes da proximidade. As pessoas conhecem-se, respeitam-se, o senhor do Café é amigo da conversa espirituosa, vê-se que as pessoas gostam de lá ir.

Tenho saudades de passar por lá na claridade do fim da manhã. Ler o jornal, planear vagamente o dia…

domingo, março 06, 2005

 

Língua de chegada

"Quando as traduções são importantes é também pelo que trazem à língua de chegada. O português não seria a mesma língua sem o trabalho de tradução."

Miguel Serras Pereira. DN 26/02


Língua de chegada
Língua de chegada

Lindíssimo!

 

Square Tolstoi

Há coisas que nem o Carlos Tê pode resolver: dois corpos trágicos pela madrugada afora, uma luz tão violenta de cozinha, a noite e o riso mais a sério que qualquer livro escrito entre Lisboa e Belgrado.

 

Problemática

Penso na problemática de encontrar legumes frescos a preços acessíveis nas grandes babilónias.

sábado, março 05, 2005

 

AFTER USING THE TOILLET PRESS THE BOTTOM UNTIL THE END!

(na porta de uma casa de banho pública)

“Casal jovem pretende rapaz disponível para entrar em
jogos de cama (só com ela). 96XXXXXXX”

 

First we take Manhattan, then we take Berlin*

Gosto de poder comprar bolas de berlim às quatro da manhã perto de casa. E pão acabado de fazer.

Ainda tenho açúcar no canto da boca.

* de Leonard Cohen

 

Elogio às bicicletas

(Texto repescado não interessa de onde)

A bicicleta era um instrumento de manguitos. Apeávamo-nos delas nas margens da ria e com um sorriso de bons vivãs mandávamos meio mundo e a morte inteira ao caralho. Sabes como era sermos campeões da volta num país de marialvas auto mobilizados? E sermos pedalantes do amor irremediável? Éramos/somos da etnia dos nus. Dos que se movem da combustão interna do peito, priapistas da coisa utópica, sabíamos deitar-nos no feno com as belas do bairro. Donos do guiador e da velocidade própria.

Em Ljubljana, pedalando debaixo de chuva e sem passaporte, a eslovena de cabelo vermelho punha-me nervoso. Nesse dia tombaram duas torres em Nova Iorque. Imagino que tenha sido no momento em que lhe telefonei de uma cabine em frente ao hotel, com as mãos a tremer, a voz derrotada. O efeito borboleta.

Quando o meu avô era novo e padeiro, abalava de madrugada, de bicicleta em direcção ao mar. De noite estava já de regresso à padaria, com sono e cansado. Nessas manhãs a seguir ao mar, os fregueses queixavam-se que o pão estava particularmente salgado. Isso só acontecia nas manhãs a seguir ao mar.

Agora fumo cigarros em frente ao Tejo. Perco sucessivos comboios para casa. Tenho saudades de quase tudo, quando éramos. Faço alguns ajustes mentalmente: a partir de agora só visto de azul; daqui para a frente relaxo todos os músculos da cara; quero estrelas de mão; guitarras eléctricas dentro da cabeça; derrubar o governo.

Não sei contar histórias, gosto que mas contem. Um dia o meu pai, antigo combatente em Moçambique, na província de Tete, contou-me como na tropa o ensinaram a não temer a morte. Soube depois que a única maneira de suportar a guerra é partir do princípio que já se está morto. O meu pai, quando se acabava a cerveja no destacamento, fazia catorze quilómetros ida e volta de bicicleta pelo campo inimigo para ir buscar mais uma grade de embriagantes ao quartel vizinho. Aproveitava e trazia cigarros. Bebia a cerveja morna, com um sorriso nos lábios e escrevia poemas na direcção da minha mãe.

sexta-feira, março 04, 2005

 

E ainda...

... Usar a máquina fotográfica mais vezes. Para tentar provar da veracidade do que escrevo (?).

 

Na agenda

Os temas seguintes:

Escrever sobre o Galeto, na Avenida da Republica.

Não escrever sobre nenhum Il Café di Roma.

Escrever sobre a Tasca do Maneta, na Madragoa.

Cinema?

E o Cinema Europa (querem deitá-lo a baixo)

quinta-feira, março 03, 2005

 

Raros Cafés de Lisboa (4)

A Bota Velha fica na Rua Domingos Sequeira e é onde se come no prato até horas tardias em Campo de Ourique. Onde se bebe copos até fechar a casa, onde se atura o Albano, o empregado mais pequeno e chalaceador do bairro.

É um Bar Restaurante “afoleirado”, mas é cá da malta. É foleiro porque (e eu já o conheci assim) sofreu uma modernização para passar de tasca de velhos a bar-restaurante-afoleirado-cá-da-malta.

Há quem lhe chame “O Escritório”, pois é utilizado para reuniões subversivas e de contra-cultura. Tem sido para muitos um “lugar de exílio” onde se debate todo o tipo de temáticas marginais.

Nas paredes, em todas elas, mais um exemplo (este talvez mais genuíno) de contra-cultura. Há ali, por parte do artista um total desrespeito pelo bom gosto.

Por tudo isto, a Bota é totalmente recomendável a quem ande espantado de existir.

Atenção que a porta é de correr. Ontem vi um homem a puxá-la para trás e a empurrá-la para frente. E não foi bonito.

quarta-feira, março 02, 2005

 

Piada privada

Já tinha ouvido a expressão: “vizinhança na blogosfera”

Mas nunca pensei que pudesse ser assim tão literal.

Mesmo que não saibam a que propósito, vão ler Paul Auster, O caderno vermelho.

 

Adeus a uns, bem-vinda a outra

[a actualização de links não é só trabalho burocrático. merece posts porque vai espelhando as ideologias, as preferências, e as manias do agiota deste pequeno blogue]

A baixa-shiatsu diz adeus ao Sinédrio (que já não está linkado). Não há mágoas, porque cada um pensa e escreve o que lhe apetece. O que interessa é continuar e escolher o caminho e a companhia. Foi o que fiz. Um abraço grande aos do Sinédrio e uma atenção especial à Bolacha Maria, que figura no Índice.

 

Já que me lembrei do homem...

Deixo-vos esta citação:

"Art teaches nothing, except the significance of life".
Henry Miller

 

Bolinha no canto superior direito deste post.


A fotografia que vos mostro foi comprada na feira da ladra. É apenas uma das que comprei, e as que comprei são apenas uma pequena parte das que havia. Todas lindas, todas diferentes, todas antiquíssimas. Não sei destrinçar a época, nem sei onde foram tiradas. Embora me pareçam dos anos sessenta - diria que não antes disso - gosto de imaginar que são um pouco mais antigas e que foram tiradas em Paris. Aconselho os livros de Henry Miller, porque foi deles que me lembrei quando as comprei.

 

A luva

Levanto-me para apanhar o último comboio do Metro. Não há ninguém na estação a esta hora. A carruagem que pára à minha frente vem vazia. Antes de entrar, como é costume, olho para onde estava sentado para ver se me esqueci de alguma coisa que sei de antemão que não esqueci no banco onde estava sentado. Entro, sento-me, apoio a mão no banco do lado. Reparo no chão sujo da carruagem e numa luva de malha preta debaixo do banco da frente, esparramada, suja.

Quantos gestos couberam já dentro desta luva?

terça-feira, março 01, 2005

 

Raros Cafés de Lisboa (3)

Na rua dos Sapateiros, a Leitaria A Camponesa é local aprazível. Porquê?

É das casas antigas mais bonitas de Lisboa, tem azulejos pintados à mão de diferentes épocas com motivos campestres que enchem a pequena sala de azul e branco, e que ficam bem com o grisalho dos cabelos da senhora que está atrás do balcão, não tem televisão, tem o silêncio de uma telefonia baixinho e de uma rua calma à porta. Fica em plena baixa Pombalina.

A freguesia compõe-se de uns quantos velhos habituais misturados com uma parte mais ou menos flutuante de jovens apreciadores de sossego. Frequentam-na também, em horários de pausa ou intervalo laboral, alguns engravatados liberais da zona.

Não é para turista ver mas podia ser cenário de algum Win Wenders acidental.

Tem sumos naturais de laranja e de limão e noticiário à hora certa. Apareçam quando forem de passeio à Baixa e levem alguém para conversar, ou um livro para ler, ou escrevam cartas a amigos distantes, a amantes impossíveis, tracem projectos falíveis, infalíveis, tracem projectos que rocem utopias.

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