quinta-feira, março 31, 2005

 

Contributo para o blogue Universos Desfeitos

Um país (incompleto)

Não se sabia ainda nada, era o princípio do mundo. Todo o alfabeto ainda dentro da carga das canetas bic. Nas mesas dos cafés dormiam homens honestos, ficavam ali, quietos, imóveis, parados. As mulheres e as mães buliam com as suas mãos, construíam filhos que depois inventavam mães. Havia casas e dentro delas uma paz de mulheres e homens e filhos serenos, dormentes, impávidos. Dentro das gavetas da mobília das casas, pouquíssimos segredos ou tesouros poderiam importar ao mundo. E todos sabemos que a riqueza de um país tem relação directa com a natureza das coisas que se guardam nos secretos da mobília, nos confins de sótãos e caves, no fundo de armários, de cornucópias velhas.

Ele veio então, prateado na alba. Ao fundo da estrada principal deserta, aproximou-se com seu passo metálico de robot. Dentro das casas ainda uma multidão de gente lenta e ensonada preparava o café e as papas de farinha torrada. O love me tender do Elvis desaguava pelas casas onde crianças e filhos acordavam esquecidos de como tinha sido o mundo no calor de ontem.

O país era uma estrada principal, alguns pomares em volta, cheios de silêncio, frutas, insectos, frutas cheias de silêncio doce, insectos alimentando-se dessa polpa. Parecia o Verão interminável nesse sítio. Eram as estiagens, a preguiça invadia os corpos que invadiam as sombras na hora desse calor imenso, claro, doendo. As crianças e os filhos brincavam com água. As motorizadas eram ao passar na estrada pequenos bocados de violência, mas até os pássaros as esqueciam no momento em que desapareciam no fundo da estrada. E logo o som de mãos em água. Os pássaros eram bocados pequenos de ternura, até que a noite caía sobre os quintais e as mães e as mulheres, as crianças e os filhos, os homens e os pais, todos preparavam o corpo e a voz para o sono. As mãos alisavam linho e flanelas, as mãos levavam a ceia à boca. As horas iam ficando mais escuras e mais frias.

Quando a manhã cosia o seu nevoeiro frágil aos ramos das laranjeiras, era Inverno por todo o lado. Quando os motores gripavam e as folhas das árvores caíam solenes no chão do país, quando de manhã só as folhas perenes se mantinham no alto desse nevoeiro frágil, muito branco, era Inverno por todo o lado.

Mas vinha esse homem lá ao fundo sem que nenhuma motorizada violentasse a manhã debaixo de água. Vinha de outro tempo e do Sul, era o amolador de tesouras com sua musica ao longe. Não vinha nem circo, nem feira, nem o cinema ou biblioteca ambulantes, nem o teatro nómada, nem saltimbancos, nem ciganos, nem profetas, nem santos ou fazedores de chuva, não vinham comerciantes, vendedores de sapatos, televisões, gelados, não eram soldados, ou filósofos, ou putas, nem vinha o salvador de pátrias esquecidas. Era apenas um talvez galego amolador de tesouras. E o homem vinha sozinho com a bicicleta pela mão. MAS PARECIA QUE VINHA DA BATALHA, ferido, a armadura de banda.


Abraço

Comments:
Bom, muito bom. Um abraço e obrigado. (Juraan Vink)
 
tb acho. um texto belíssimo.
 
juraan vink: ora essa!

cândida: muito obrigado!
 
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