sábado, março 05, 2005

 

Elogio às bicicletas

(Texto repescado não interessa de onde)

A bicicleta era um instrumento de manguitos. Apeávamo-nos delas nas margens da ria e com um sorriso de bons vivãs mandávamos meio mundo e a morte inteira ao caralho. Sabes como era sermos campeões da volta num país de marialvas auto mobilizados? E sermos pedalantes do amor irremediável? Éramos/somos da etnia dos nus. Dos que se movem da combustão interna do peito, priapistas da coisa utópica, sabíamos deitar-nos no feno com as belas do bairro. Donos do guiador e da velocidade própria.

Em Ljubljana, pedalando debaixo de chuva e sem passaporte, a eslovena de cabelo vermelho punha-me nervoso. Nesse dia tombaram duas torres em Nova Iorque. Imagino que tenha sido no momento em que lhe telefonei de uma cabine em frente ao hotel, com as mãos a tremer, a voz derrotada. O efeito borboleta.

Quando o meu avô era novo e padeiro, abalava de madrugada, de bicicleta em direcção ao mar. De noite estava já de regresso à padaria, com sono e cansado. Nessas manhãs a seguir ao mar, os fregueses queixavam-se que o pão estava particularmente salgado. Isso só acontecia nas manhãs a seguir ao mar.

Agora fumo cigarros em frente ao Tejo. Perco sucessivos comboios para casa. Tenho saudades de quase tudo, quando éramos. Faço alguns ajustes mentalmente: a partir de agora só visto de azul; daqui para a frente relaxo todos os músculos da cara; quero estrelas de mão; guitarras eléctricas dentro da cabeça; derrubar o governo.

Não sei contar histórias, gosto que mas contem. Um dia o meu pai, antigo combatente em Moçambique, na província de Tete, contou-me como na tropa o ensinaram a não temer a morte. Soube depois que a única maneira de suportar a guerra é partir do princípio que já se está morto. O meu pai, quando se acabava a cerveja no destacamento, fazia catorze quilómetros ida e volta de bicicleta pelo campo inimigo para ir buscar mais uma grade de embriagantes ao quartel vizinho. Aproveitava e trazia cigarros. Bebia a cerveja morna, com um sorriso nos lábios e escrevia poemas na direcção da minha mãe.

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