sábado, março 26, 2005

 

Fez sol o dia inteiro em Ipanema*

Primeiro comecei por escrever de noite e ler de dia, deixando que a pintura se fizesse apenas nas horas que sobrassem. Aprendi logo a dividir o ímpeto de pintar do de escrever. Fiz assim: escrevia durante todo o Inverno e recomeçava com o trabalho da pintura e do desenho assim que começassem as estiagens. Tinha o tempo das estações intermédias para a gradual mudança de ofício.

Sou uma pessoa organizada, estou atento às necessidades interiores e deixo que o clima interfira com os seus ciclos nas minhas acções. Sucessivamente. E aprendi a traçar percursos sazonais, ascendentes e descendentes, uma espécie de transumâncias que visassem perseguir o melhor local para o que me propunha fazer. Assim, tinha preparado para o tempo da escrita umas águas-furtadas na cidade, e para o tempo do desenho uma velha cozinha de quintal na zona da lezíria.

Devo dizer que estou bastante apreensivo com as recentes transformações climáticas. Pensei como solução na hipótese da diáspora. Ou então recomeçar simplesmente com o saxofone.


*do poema sujo (1976) de Ferreira Gullar

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ar condicionado?
 
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