quarta-feira, março 16, 2005

 

pág.35 The Best American Poetry - 1995

Rapariga Escrevendo uma Carta



Um ladrão dirige-se ao museu ao volante da sua carrinha preta. O guarda-nocturno diz Desculpe, fechado, tem de voltar amanhã. O ladrão espeta a ponta da sua faca na orelha do guarda. Não tenho a noite toda, diz, preciso de alguma arte.

A arte é para o prazer, diz o guarda, não para a posse, não se pode qualquer coisa, e então a fita-cola está a tapar-lhe a boca. Não te preocupes, diz o ladrão, estamos do mesmo lado.

Encontra os Mestres Flamengos e vai direito a um Vermeer: “Rapariga Escrevendo uma Carta”. O ladrão sabe o que está a fazer. Tem uma licenciatura. Corta a tela, desde a margem da prateleira onde estão as saladeiras, até ao quadrado de luz do Sol, projectado sobre os ladrilhos pretos e brancos do chão.

A rapariga não ouve isto, está tão absorta escrevendo a sua carta, não repara nele até tarde demais. Ele está na imagem. Sentado junto à harpa. Toca a Sonata em Mi Menor de Domenico Scarlatti, que um dia fez o coração dela bater ao ponto de ter ultrapassado a harpa correndo à frente, onde ficou parado à espera que a música recuperasse terreno.

Ela trabalhou nesta carta durante trezentos e vinte anos. Agora está ali um homem, e apesar de vir vestido com umas roupas estranhíssimas, vai tocando harpa para ela, só para ela, não há mais ninguém vivo no museu. O homem a quem ela escrevia está morto – tempo para parar e pensar nele – o artista que a pintou está morto. Ela própria deveria estar morta, mas tem ouvido para a música e um coração que corre pelas escadas acima do Museu Gardner, com um homem que conhece apenas há alguns minutos, mas é verdade, parece-lhe a vida toda.

Por isso quando o ladrão lhe entrega a faca e diz tu recorta as pinturas para fora das molduras, tu enrola-as, ela fá-lo; quando ele diz tu põe outra tira de fita-cola sobre a boca do guarda para que ele páre de falar de estética, ela cola-lhe a tira de fita-cola, e quando o ladrão a senta ao volante e diz, guia, boneca, a noite é nossa, é a Rapariga Escrevendo uma Carta que guina a carrinha preta pela rampa ocidental, em direcção a Storrow Drive e depois para a Mass Pike, é a Rapariga Escrevendo uma Carta que conduz a oitenta milhas por hora em direcção a Oeste para um país que ainda nem sequer foi descoberto, com um cadastrado, uma carrinha cheia de pintores famosos e nenhum sítio para onde ir a não ser para baixo, mas para a Rapariga Escrevendo uma Carta estas coisas não importam, tem uma cerveja na mão livre, segue pela estrada fora, é real e está apaixonada.

William Carpenter
( pág. 35 The Best American Poetry - 1995 )


versão portuguesa de João e Rosarinho Assis Pacheco.

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