quinta-feira, março 10, 2005

 

Pina Bausch

Tive uma bisavó lindíssima de olhos azuis. Era a mãe do meu avô materno e chamava-se Eulália. Mais ninguém da estirpe herdou aqueles olhos.

Lembrei-me dela hoje, mais precisamente de um acontecimento, talvez o primeiro dos raros com que tenho sido brindado: a imagem, o gesto de um teatro primordial e secreto que escapou nem eu sei como da esfera do privado, para vir tocar no sensível que eu na altura nem suspeitava possuir.

Devia ter aí uns cinco anos e estava com ela dentro de uma arrecadação no quintal, ao pé do poço. Era uma divisão que servia para ter um tanque de lavar roupa, para ter o assador das sardinhas, para guardar a mais variada carga e utensílios. E eu lá estava, atrás dela como um gato silencioso, sem adivinhar ainda o momento da revelação, da metamorfose.

De repente, os pássaros deixaram de cantar e faziam apenas o som de saltarem de ramo em ramo passando da laranjeira para o limoeiro e do limoeiro para a laranjeira. Fez-se silêncio, que aumentou no momento em que de frente para um pequeno espelho tisne e gasto, tirou do cabelo apanhado um enorme gancho. Pude então contemplar esse cabelo branco, solto e enorme compondo, revelando aquilo que era a minha avó verdadeira.

Parada, de frente para o espelho alisando com um pente os cabelos de um comprimento insuspeitado. Muito brancos.

Pouco depois, voltou a apanhar o cabelo, num movimento rápido e fluído. Os pássaros recomeçaram no momento em que ela saiu igual para a claridade e calor do quintal.

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