segunda-feira, março 07, 2005

 

Raros Cafés de Lisboa (5)

Fica ali entre a rua Bernardim Ribeiro e a Ferreira Lapa, ao Conde Redondo e chama-se Serra Nevada. As circunstâncias fizeram com que o frequentasse a título de empréstimo. Acordava-se e ia-se lá tomar o pequeno-almoço ou, no meu caso, almoçar. Durou isto uma curta temporada, mas quando penso em Cafés de bairro em Lisboa penso naquele como meu. O Café Serra Nevada é um lugar especial, por ser despretensioso, honesto, meão, até. Mas com almoços muito bem cozinhados, serviço familiar e simpático, e sol.

Ao mesmo tempo que é frequentado por gente como o Eduardo Prado Coelho e António Lobo Antunes, é palco das cenas mais escabrosas que um bom bairro lisboeta pode oferecer para o deleite de escatológicos cronistas. Lembro, a propósito, aquela vez em que a porteira do prédio do lado perdeu as estribeiras e foi armar confusão com a senhora do cãozinho diarreico que no caminho para o Serra Nevada se tinha aliviado de maneira assaz e líquida pela calçada portuguesa. Um autêntico trilho com vários metros de comprimento e que acabava à porta do estabelecimento, denunciava sem sombra para dúvidas os culpados. Sendo que o cão não teve culpa nenhuma nesta embrulhada e foi, no desenrolar dos acontecimentos o animal que demonstrou mais nível.

Hades aprender a limpar a merda do teu cão!” Dizia a porteira do lado de fora. A resposta da senhora do cão era um desprezo de cigarro na mão e nariz empinado. A porteira, vermelha de ódio, continuava num “que não há direito, que hades aprender a limpar a merda do teu cão!” A senhora do cão, nada. E é então que a porteira se passa, entra no Serra Nevada, tira três guardanapos do balcão e volta a sair para (isso mesmo que estão a pensar) regressar com a papelada suja de porcaria e a esfregar nas mãos da senhora do cão.

O cão, sentado à porta, nem queria acreditar. A dona e a porteira engalfinhavam-se no meio da merda que ia sujando mãos, roupa, cara, cabelo e inevitavelmente o próprio balcão. A coisa acabou pouco depois. A porteira foi-se embora com aquele alívio que nasce do dever cumprido, imagino. A senhora do cão perdeu algum tempo no lavatório do Café a tirar porcaria da orelha, e foi-se embora também. A senhora do Serra Nevada nem sabia o que dizer. Não tinha palavras para tanto.

Mas, no mais das vezes, o Serra Nevada é lugar pacífico, onde confluem as diversas gentes da proximidade. As pessoas conhecem-se, respeitam-se, o senhor do Café é amigo da conversa espirituosa, vê-se que as pessoas gostam de lá ir.

Tenho saudades de passar por lá na claridade do fim da manhã. Ler o jornal, planear vagamente o dia…

Comments:
epá, tive que me rir com esse relato vindo do espaço...
tou a imaginar aquelas duas a brigar e a merda como pano de fundo...
altamente.
 
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