quarta-feira, março 23, 2005

 

Raros Cafés de Lisboa (7)

Mel e silêncio na Pastelaria Lua Nova. O primeiro vende-se. O segundo encontra-se quase sempre disponível no pequeno espaço do Café. Para quem toma o pequeno-almoço próximo das horas do grande, neste Café poderá beber o seu leite Vigor sem inalar o cheiro dos fritos saturados das refeições. Como não faz serviço de restaurante a Pastelaria Lua Nova, na Rua Domingos Sequeira não sofre do mal de ser frequentada pelas pessoas aflitas dos almoços ulcerosos, on the rush.

De resto tem o encanto de ser Café perdido no tempo. Não ter televisão ajuda a apreciar o eléctrico 28 subindo para os Prazeres ou descendo na direcção da Estrela. Há também a imagem desoladora do arruinado Cinema Paris morrendo, morto e amarelado, do outro lado da estrada.

O senhor Mário oferece rebuçados às crianças que vão com as avós habituais. Leva à mesa as meias de leite e as torradas do lanche. E não fala muito o senhor Mário, fica sempre suspenso numa espécie de timidez dividida com o estar atento à Antena 1. Vai lendo o jornal, vai gerindo a casa.

E as pessoas que entram no Café têm o ar de quem o faz há anos. Sentam-se os velhos, preferem ficar de pé ao balcão os novos, de passagem. Eu sou dos novos, mas sento-me. Fico ali a ler, se for sozinho, a conversar se levar alguém. E há uma luz calma e especial que entra no Café. De repente tem-se tempo (um tempo que escorre meloso) nem que seja para ver o velho Cinema desaparecer na geografia sentimental da cidade.

Comments:
O Lua Nova é um primor de café. Estive para te falar dele no outro dia (ou falei mesmo?), não sabia que o conhecias.
Faz parte do triangulo das bermudas de campo de ourique, entre o cinema Paris, a Bota Velha e o Lua Nova, vão desaparecendo cultura, fígados e stress urbano, entre muitos.
 
a lua nova num dia em que ela, a lua, está cheia :)
 
Enviar um comentário

<< Home

This page is powered by Blogger. Isn't yours?