domingo, abril 10, 2005

 

“COMO DESVIAR O EIXO DA TERRA” 2005 | 16mm | 2’

Piso 1, sala onde está uma pequena escultura francesa do século dezanove. O projector EIKI aponta para a tela ao fundo onde se projecta um pequeno filme sem som.

Na primeira parte um homem aparece num campo verde com árvores ao fundo. Há um cilindro branco à sua frente, um tubo à altura da cintura por onde vai enfiando uma vara de tamanho incalculável, lentamente.

Numa outra imagem, dois homens esperam do outro lado do mundo o aparecimento da vara que do outro lado é introduzida. Sabemos que é do outro lado do mundo porque o espaço é agora um descampado lamacento e a câmara filma de pernas para o ar. Há um cilindro semelhante ao primeiro, a ponta de uma vara vai saindo com a mesma lentidão.

Numa terceira parte, outra vez o primeiro homem no mesmo campo verde com árvores ao fundo faz entrar no tubo uma pedra presa por uma corda. Lentamente vai enfiando a pedra dando corda, demoradamente.

A pedra aparece do outro lado, onde agora só um dos homens em descampado lamacento (de pernas para o ar) a recebe, desata e coloca no chão.

Volta-se ao primeiro homem que empurra com grande esforço e cuidado esse cilindro que entra pela terra. Na imagem seguinte os outros dois homens ajudam empurrando esse tubo esse cilindro esse eixo da terra que vai perdendo a perpendicularidade que fazia com o campo relvado e com o descampado lamacento. O eixo da terra é desviado.

O filme demora poucos minutos e é consecutivamente repetido no piso 1 onde mora uma pequena escultura francesa do século dezanove. Perto das 16h ou 17h uma revelação que ninguém previu: aparece uma mancha de sol que entra, suponho, por uma janela do piso 2 e que vai pousar na tela onde o filme continua. A mancha interfere com a qualidade da imagem e por isso é motivo preocupante para os responsáveis do museu. Quanto a mim, a mancha potencia a leitura da peça, abre novas possibilidades interpretativas, a mancha na peça roça o milagre.

O filme repete a mancha avança, progride, toma novas formas, ocupa outras partes da tela, com o cuidado e lentidão dos homens que no vídeo se entretêm desviando o eixo da terra.

Se olharmos com atenção é possível ver a mancha avançar não já com o movimento de rotação da terra mas sim com o esforço lento dos três homens no filme. É vertiginoso, asseguro-vos.


Pedro Paiva e João Maria Gusmão
Intrusão: the Red Square
11 de Março – 22 de Maio de 2005
Pisos 0, 1, 2 e 2ª
Curador da Exposição: Pedro Lapa
Museu do Chiado – Museu Nacional de Arte Contemporânea

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