sexta-feira, maio 13, 2005

 

Raros Cafés de Lisboa (9)

Se faz sentido escrever sobre Cafés raros em Lisboa é porque os há tão invulgares que a adjectivação que se lhes atribui não é meramente literária, de estilo, de embelezamento: há Cafés realmente Raros em Lisboa, daqueles em que vale mesmo a pena ir “perder horas”, poetar, marcar encontros clandestinos, duchampear. Há Cafés que parecem impossíveis.

Como este, ao Jardim Constantino, onde o silêncio é apenas interrompido pelo ocasional electrocutar das moscas naquela espécie de néon florescente. Há que entrar no Joaninha, aliás, Restaurante Joaninha Bar, assim pela tarde, sentar de frente para a grande vidraça que emoldura as copas verdes das grandes árvores do jardim, animadas por vezes pela serôdia brisa lisboeta.

Lá dentro, quase sempre quase ninguém (só lá fui de tarde). Uns quantos leitores apreciadores de silêncio olham à vez essas copas e os textos que trouxeram, não pestanejam sequer quando a mosca pousa na sua própria morte sonora: zzzt. Ficam por ali entre cervejas e para lá dos textos – acordam por vezes no som de uma motorizada mais veloz.

No Joaninha há uma zona de Café e outra de Restaurante e divide-as um pequeno desnível, sendo que o espaço das refeições é uns degraus superior. Não há qualquer televisor ou transístor que viole a paz do local, nem mesmo a senhora mulata de bata branca atrás do balcão interfere de maneira terrorista no acalentado silêncio. Há, quando muito, uma certa cumplicidade entre a senhora e o leitor, que quando este tira os olhos do texto e faz um ar de estranheza e incompreensão, a senhora do balcão aguenta o pousar do copo no lavatório e só o faz quando o leitor esboça um leve sorriso que evidencia o feliz entendimento textual.

De maneira que no Café Joaninha, na rua Passos Manuel, a ordem inverte-se e é como se o tempo do texto marcasse a velocidade e o desenrolar das acções alheias. Um texto que está presente mesmo sem leitores em serviço. Quando se entra no Joaninha percebe-se que se está num sítio estranho, numa outra realidade, num outro tempo. Ora, acontece que essa sensação é muito próxima da que se tem quando se lê. Arrisco que neste Café (na rua da Assírio & Alvim) se aprende a Ler.

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