segunda-feira, junho 20, 2005

 

Manifestações do "Espírito Santo" (3)


“Percebi que estava numa situação difícil. A bola mais pequena estava exactamente entre a minha bola e bola dele, era impossível lá chegar, seria preciso um malabarismo, um toque com muita sorte. Acendi um cigarro e estudei a situação. Aparentemente estou lixado, disse, mas não me dou por vencido, é proibido o macê? O macê não é proibido, disse com ironia o Maître da Casa do Alentejo, mas se o senhor rasgar o pano terá que pagá-lo. Está bem, disse eu, então acho que vou tentar um macê. Fumei com calma o meu cigarro e dei uma volta ao bilhar para ver do outro lado a trajectória que a minha bola devia fazer. Gostaria de lhe fazer uma proposta, disse o Maître da Casa do Alentejo. Olhei para ele, posei o meu taco no bilhar e tirei o casaco. Diga lá então, disse. Esta jogada merece uma aposta, disse ele, tenho uma garrafa de Porto de cinquenta e dois, acho que era mesmo a altura de a abrir, se o senhor ganhar ofereço-a eu, se perder é o senhor que a oferece. Fiz rapidamente o cálculo de quanto devia custar um Porto de cinquenta e dois e do dinheiro que me restava no bolso: de facto não estava em condições de fazer apostas, o meu dinheiro não chegava. O Maître da Casa do Alentejo olhava para mim com ar de desafio. Não tem coragem? Disse ele. Tenho, respondi, o que mais me apetece esta noite é beber um Porto de cinquenta e dois. Então com licença, disse o Maître da Casa do Alentejo, e foi à procura da garrafa. Eu sentei-me numa poltrona e continuei fumando. Teria tido vontade de pensar, mas não me apetecia pensar. Apetecia-me só estar ali a fumar, a olhar para o bilhar com aquela estranha combinação geométrica que as bolas tinham formado no pano e que eu devia superar. E o estranho percurso que a minha bola teria de desenhar para atingir a bola do adversário pareceu-me um sinal: era evidente, aquela parábola impossível que eu devia conseguir no bilhar era a mesma parábola que eu estava a cumprir naquela noite, e assim fiz uma aposta comigo próprio, mas não propriamente uma aposta, antes um esconjuro, um exorcismo, um pedido ao destino, e pensei: se eu conseguir, a Isabel aparece, se não conseguir nunca mais a vejo.”


Antonio Tabucchi em Requiem

Comments:
e? acertou? ela apareceu? eu sei que o objectivo não é contar, mas…
Também costumo brincar com esse adivinho do destino e incrivelmente há coisas pouco improváveis que acontecem mesmo, se conseguirmos “acertar”. Ultimamente não tenho acertado, não sei bem ao certo o que significará, só sei que me perturba e faz-me crer que o que foi não volta a ser e que as pessoas podem mesmo desaparecer das nossas vidas…
 
ela...
não, não vou dizer. Vai ler, é muito bom! obrigado por espreitares este blogue, lullaby.
 
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