terça-feira, julho 05, 2005

 

Transumâncias, crónicas ascendentes e descendentes

[As transumâncias saem de forma (i)regular e clandestina, em publicação de autor auto-financiadas. A tiragem é reduzida e abrange amigos numa distribuição que vem directamente do produtor. O projecto tem contado com a colaboração sistemática de um fotógrafo que oferece imagem ao texto, e de um designer que intervém na imagem, no texto, no suporte (papel) e os trabalha graficamente. O nº0 saiu no Natal de 2002. Há mais de um ano que não é publicada nenhuma transumância. O autor acredita que em breve tornará a sair uma nova série. A que segue é a nº1, salvo erro, e é até agora a única a cair na blogosfera].

AS VARANDAS

Alguns poetas saem à rua de cigarro preso no sorriso. Tomam chá livremente, puxam a gola do casaco para cima, e de olhos semicerrados ao frio, escrevem coisas azuis em mesas de Café redondas. Enquanto isso, o homem do leste, louro e cansado, guarda o sorriso dele no bolso para usufruir mais tarde, quando a cerveja ousar.

Entretanto, e ao mesmo tempo que começa a chover lá fora, dois velhos organizam silenciosamente o seu último passeio inatel para a morte. Estão em casa, é sexta-feira e arrefecem.

Algures na praça Salgueiro-Maia, um homem de olhar aflito e impaciente, planeia a compra de um artigo erótico para fazer a revolução mais tarde, na cama. A mulher não sabe de nada, é surpresa.

No segundo andar de um prédio não muito novo, uma família perde mais uma hipótese de um jantar conversado, congelada que está no seu silencioso e habitual ruído televisivo. É uma família vulgar de classe média baixa, num país em anunciada crise: um casal ainda mais ou menos apaixonado; dois miúdos com idades já para ter juízo; um gato branco, capado, que se levanta devagar do seu lugar, roça na perna de um deles, mia qualquer coisa indecifrável e quase inaudível e vem à janela, onde ainda chove.

Lá fora, como se não chovesse, dois namorados muito novos e muito apaixonados, ela de cachecol com vento e estilo, ele de óculos molhados quase a não ver nada, têm a sua primeira conversa sobre o imposto automóvel.

Muito longe de tudo isto, ou muito perto, noutros lugares do mundo, onde há gente e onde há coisas, muitos acontecimentos se desenrolam, razoáveis ou não, importantes ou não, decisivos. Neste preciso momento, dois polícias eslovacos, num controlo de passaportes, multam em cinco dólares dois turistas italianos que adormeceram com os sapatos calçados em cima dos bancos de um comboio com destino a Belgrado. Um deles ia a sonhar com campos de girassóis, cães, e com a namorada bonita que deixou em Nápoles. O outro adormeceu com o Rimbaud e a saliva a escorrerem da boca.

Num quarto de pensão em Barcelona, perto da Plaza Real, uma rapariga oriental faz amor com um rapaz tímido mas empenhado. Não sabem se estão apaixonados, são de países diferentes e prometeram trocar e mails para sempre.

Há um contador de estórias numa rua de Marrakech com um ataque de soluços; uma faca que voa em direcção a uma mulher num apartamento em Innsbruck; um poema muito pequeno do Cesariny a ser lido no linóleo de uma sala de teatro em Lisboa; um velho numa rua qualquer, de bengala em riste na direcção das varandas, a dizer que elas são bonitas, as varandas.

Em todo o lado e aqui, a vida parece ser feita de pequenos nadas. Eu continuo, coço a cabeça, levanto-me da mesa, vou para o sofá e fico a pensar se devo ou não telefonar-te.

Comments:
Adianto-me já à batukada que me vai “moer o juízo” por utilizar estória em vez de história. Mas é a vida! ;)
 
bonito texto b-shiatsu!
quando pensava na frase "a vida é feita de pequenos nadas" sempre pensei que era uma vida que ao longo do tempo ia sendo feita de pequenos nadas...
mas neste texto antes de ler esta frase ela surgiu-me, ou seja tu conduziste-me para lá... a vida, em cada instante, é feita por pequenos nadas, distribuidos pelo espaço e pelas diferentes pessoas vivas, pelas diferentes varandas...

espero que lhe tenhas telefonado.
 
liga! liga! liga!

incitação no mesmo tom do tradicional: despe! despe! despe!

;)
 
não era "an", era "anónimo do costume". humpf.
 
Devias tentar reaver o fotógrafo...os dois faziam ainda mais sentido!

*
 
a segunda série conta com ele, naturalmente.
 
argh...
 
Enviar um comentário

<< Home

This page is powered by Blogger. Isn't yours?