sábado, julho 09, 2005

 

Transumâncias, crónicas ascendentes e descendentes

[mais uma repescagem da primeira e datada série de transumâncias. Não me lembro que número tinha esta...]


(homens muito tristes)


Estive aqui sentado durante muito tempo a ouvir as coisas. E depois eram cinzas a crescer nos olhos, eram cada vez mais, deixando um recado carbonizado dentro da lembrança quente dos olhos frios. A história continua sempre dentro do mundo que está fora dos olhos. A lembrança em ponto pequeno, do mundo, do tempo, das leis, da morte afogada em riso volumoso. E a gente grava os sons. Sim, quando comemos maçãs em frente a algum desses silenciosos mares, resta o som desse afinfar de dentes em casca de maçã. E o mar também fica na memória, aberto em claridade. As margens fluviais não são mais bonitas que um corpo até aos joelhos plantado na água do mar. Gravando sons para uso pessoal. Usando o olhar como gravador de sons.

Em certos dias de chuva, homens muito tristes vagueiam pela praia movendo-se quase como gaivotas em terra. São homens estrangeiros de si próprios e parecem guardar ninhos de vespas no peito. Olham a areia húmida a manhã toda, ouvem o vento nisso. Nunca falam, mas eu imagino que o seu fôlego daria para dizer qualquer coisa como: tirem o nosso nome deste poema.

E a noite é uma pedra rolada no meu bolso. Tiro-a. Sabe a queda acidental das laranjeiras. A infância é cair das laranjeiras e ficar cego durante muitos dias. São muitas mãos trazendo-nos a comida à boca durante o tempo da cegueira. A memória de sermos crianças cegas no sofá, vendo televisão pelos ouvidos, ou seja, gravando com os olhos. Lembro-me de cheirar as feridas dos braços. De ter saudades da cara dos pais. De quando as caras eram vistas com os olhos, e as mãos queriam cheirar a pele adulta dos pais.

Guardo pedras nos bolsos para me lembrar das coisas importantes. Cada pedra tem um sabor específico que abre links para as diversas partes do conteúdo do meu transistor-memória. Há uma pedra para o amor. Quase não cabe na boca. Tem um sabor negro como água a bater no casco de um pequeno barco parado numa sílaba da palavra noite.

Tenho frio dentro das mãos. Estão sujas de frio. Querem agarrar coisas quentes e demoradas como pão quando sai do forno e existe no seu peso quente de alimento sagrado. Tenho um ninho de vespas no chakra do meu peito, a cinza secando o paladar dos olhos, as imagens. Tudo se afastando desse sabor antigo de frutas nos olhos, as lágrimas doces, as imagens. Mãos e peito e olhos cada vez mais como um interminável sono de gato.

E isto é tão brutal como o vento ser invisível duas vezes, porque já não é nas copas, nem nas dunas, nem no voo dos pássaros, nem no chapéu de sol, nem na madeixa de cabelo da rapariga, nem nas páginas, nem por trás das paredes dos hotéis, nem na boca das revoluções. Fica o silêncio parado no instante do silêncio parado nos olhos.

Comments:
wow
 
Porque é que tem que ser assim?!Usa os teus olhos, a tua boca, as tuas mãos, o teu corpo e vai...segue...voa...
 
belo, belo. não vendes estes livrinhos?
 
É a transcumância nº 9 (fui eu que fiz o design - lembras-te?).

Beijos, da tua sempre

Zóina.
 
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