segunda-feira, agosto 22, 2005

 

Contributo para o blogue Xicuembo

[Este texto é repescado. Não sei bem de onde mas é repescado]


A revolução começa na pastelaria

Para fazer uma revolução há duas coisas indispensáveis: alguém ou alguma coisa contra que se revoltar e alguém que vá para a frente e o faça. A indumentária é geralmente informal e ambas as partes podem mostrar-se flexíveis em relação à hora e ao local, mas se uma das facções não comparecer é provável que todo o empreendimento fracasse.

Woody Allen




Não importa onde começa. Há é que inverter a ordem domingueira das pequenas cidades. As gentes precisam assegurar mais que as pequenas derrotas e vitórias diárias, precisamos todos de um pouco de vento nos cabelos e de grandes tarefas: semear ventos e colher tempestades, acender luz no peito e fogo na ponta dos dedos. E pôr mar nos olhos, e ter pernas de correr, e um punho fechado na direcção do medo – com força, esmurrar esse medo que nos impede de entrar em comboios e partir.

Mas importa que comece, que se estenda e propague sempre em pequenos gestos, hábeis pormenores, enormíssimas subtilezas. Vento e chuva e riso, sol e saliva, a palavra. Coisas grandes: a maneira como se ocupa a mesa do fundo, a mão levantando o cigarro, na cabeça a revolução como um comboio atravessando um país distante. Assim, há que pôr comboios dentro das pastelarias, musicas estrangeiras, rumores de uma canção ao longe num dialecto intraduzível. Tudo isso conciliável com a voz de pedir meias de leite e com as mãos que seguram o jornal. O ruído do sangue no corpo abafando o televisor no canto por cima da arca dos gelados.

A revolução pode ser um dia de chuva, ou uma manhã clara, desde que haja alguém que diga: este dia de chuva vem dar-nos frutos lavados, ou: esta manhã clara é para ver o sol avançar devagar pela pele dos teus braços. E a revolução pode ser finalmente essa grande ternura que nos falta, dizer e usar a ternura de modo violento.

Quero à força toda que o caos se instale em cada recanto público e que tu me digas amor cheia de Outono e que os teus lábios digam amor e que essa palavra roce devagar os teus dentes todos. Também quero ver instituída sobre a lezíria uma tropicália que incendeie. Quero que em cada gesto nosso esteja implícito o beijo na boca do Caetano e do Gil, que cada gesto nosso seja para sempre. Há que subir às mesas, sim há que subir com os pés para cima das mesas e gritar qualquer coisa que tenha o poder de fazer corar as senhoras.

Mas as pessoas na sala de jantar são ocupadas em nascer e morrer, diz a canção, e na pastelaria os sorrisos parecem-se com pastéis de nata, as pessoas dentro das pastelarias não traçam nem executam projectos que invertam a ordem domingueira das pequenas cidades. Proponho essa tropicália dentro das cabeças, primeiro, dentro das pastelarias depois, dentro das vilas, das cidades, dentro do mundo. Pirotecnia por favor, pirotecnia!

Eu organizo o movimento!

Comments:
Obrigado pelo texto, que não conhecia e achei belíssimo. Até porque é nas pastelarias que morrem, alinhadas em luzidias travessas metálicas e debaixo da luz de néon as bolas-de-berlim. Uma a uma, tragadas, mordidas, lambuzadas, lambidas, elas cedem volume açúcar, o seu amarelo sucumbe ao creme dos beiços gulosos, lambedores, gordos lambedores sob o néon que interroga as bolas-de-Berlim alinhadas, e dessa revoluão de pastelaria há um trim-trim que soa e faz gritar(em-se) na pastelaria suaves loas ao palmier que, é sabido, nem é gordo nem é de Berlim.
 
Enviar um comentário

<< Home

This page is powered by Blogger. Isn't yours?