terça-feira, agosto 09, 2005

 

Saudades de Márcio

Márcio era um mitómano. Não, Márcio era um grandessíssimo mentiroso e hoje arrepiam-me as histórias em que fui capaz de acreditar. Eu e a escola toda. Fiz a primária com o Márcio, filho de pais Angolanos (?) se não me falha a memória, e noto hoje que desde o tempo em que o conheci até ao tempo em que o perdi (passando pelo intervalo de anos em que o Márcio desapareceu - veio a saber-se que tinha ido jogar futebol (!) para um clube holandês …) noto que não houve evolução na maneira de mentir, aquilo já era perfeitamente nato e desde cedo desarmava os mais cépticos, os adultos, quem fosse preciso. E era um excelente moço, bom amigo, camarada de trafulhices, não era de fugir quando alguém precisasse dele. Ele estava lá, mas tudo o que dizia era uma trapaça dolosa.

Bons tempos esses com o Márcio. Em que para estar com ele teríamos que (e era impossível não o fazer) nos deixar levar pela brisa suave da sua ficção. Márcio era um sedutor eloquente e, embora contasse os seus feitos na primeira pessoa (usando às vezes a pessoa do pai) deixava sempre clara a possibilidade de também a nós nos acontecer o improvável. Ora, só tenho de agradecer ao Márcio por ter sido o meu romancista da infância e adolescência, embora a sensação de ridículo que creio sentir hoje, venha desta sociedade e desta cultura que nos ensina a evitar os Márcios e os cataloga como gente sem valor e de quem nos devemos defender. Creio antes que deve haver espaço no mundo para quem, por necessidade fisiológica precisa inventar, e que por mérito e talento próprios consegue que acreditem nele. E acredite o leitor que eram histórias INCRÍVEIS.

Comments:
Bela homenagem, ao teu amigo Márcio e a àqueles que não se conformam com a medida curta da vida. São, por vezes, cansativos, mas sem dúvida necessários, se tiverem boa índole.
 
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