quarta-feira, agosto 17, 2005

 

Tenho de te contar G,

Um homem casa com uma mulher. Essa mulher, como ele, está desempregada mas vai arranjando trabalhos mais ou menos desinteressantes e temporários. Um deles, na Avenida 5 de Outubro: qualquer coisa a ver com o programa AutoCAD, desenhar instalações eléctricas ou coisa parecida para uma empresa francesa. O importante nesta história é o local: Avenida 5 de Outubro num prédio que tem na fachada uma espécie de escultura – uma figura como que segurando o prédio.

Tempos depois o homem separa-se dessa mulher. Mais ou menos seis meses depois desse trabalho que terá durado um mês. E exactamente agora, quando te conto isto, passaram quase dois anos sobre esse trabalho e um pouco menos sobre a separação e muitas coisas aconteceram nos entretantos. O homem sofreu, a seu tempo, e logo que conseguiu foi experimentando casos e relações com outras mulheres. Contam-se algumas (não tantas assim) mas nessa história toda de conquistas e seduções, destacam-se duas mulheres, aquelas com quem manteve aquilo que se pode chamar de: namoro…

Assim, surge X, amiga nova por quem o homem se apaixona (ou julga apaixonar-se, não interessa para aqui) e que terá uma importância capital na superação da dor e da solidão do homem. Essa relação dura uns meses e vai esmorecendo depois. Mas o que interessa nesta história é o tempo do trabalho da então mulher desse homem: chamemos-lhe M. E nesse tempo do trabalho de M na 5 de Outubro (há mais ou menos dois anos, ou um ano e muito) X vivia num apartamento mesmo em frente, do outro lado da Avenida, o homem não a conhecia, nada fazia prever o tudo que aconteceu depois.

Poderás pensar, ok Lisboa é um penico, não é assim tão extraordinário, mas eu digo-te, G, a história ainda não acabou. Repara, neste momento o homem já não está com X, encontrou uma mulher num bar no Bairro Alto. Nunca a tinha visto, combinaram sair umas vezes, ela e ele começaram aquilo que a poderá chamar-se um namoro desprendido. Não interessa. O que interessa ainda aqui é o tempo de há quase dois anos e aquele enclave na Avenida 5 de Outubro. À rapariga do bar no Bairro Alto chamemos-lhe P. Pergunto-te G, onde morava P nessa altura? P morava (e ainda mora) na Avenida 5 de Outubro enfrente ao prédio onde trabalhava M. Mais, X morava no andar por baixo do apartamento de P. P e X eram vizinhas separadas por um tecto, M trabalhou todos os dias durante um mês em frente a essas vizinhas que não se conheciam.

E depois, nestes quase dois anos para cá essas vidas tocaram-se de maneira incrível. O homem nem sabe como, nenhuma delas faz ideia. Imagina G: é de manhã, M desce do 26, dobra a esquina e toca com o ombro no ombro de P, ensonada, que desceu momentos antes no elevador com X sem que trocassem mais que o bom dia diplomático. Nesse mesmo momento, numa cama na Graça, o homem dorme o sono dos incautos, sem saber que a aliança que traz no dedo não é mais do que o pacto que fez com o imponderável.


[esta história é dedicada a M a X e a P]

Comments:
E agora enquanto “postas” perdidamente, após pausa, não imaginas que possam existir mais letras maiúsculas desconhecidas (ainda) nesse mesmo enclave?
 
Puxa! que história, hein?
 
Se eu fosse a si tinha cuidado com o (eventual?) porteiro desse dito prédio.
 
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