quarta-feira, setembro 07, 2005

 

Raros Cafés de Lisboa (10)

Depois das férias para descanso do pessoal, o “escritório” reabre a porta aos poetas. Era vê-los durante o mês de Agosto em enxames dispersos pela cidade, como insectos atordoados, os poetas. Recomeçou o mês de Setembro, desprenderam já as primeiras chuvas, timidamente. Sobem-se os primeiros colarinhos para cima, e a casa, para alívio, reabre.

No Restaurante Bar Solar dos Galegos, bem no topo da Calçada do Duque, a frequência compõe-se essencialmente de poetas e de algumas personagens literárias alheias à literatura (como convém). Tanto uns como os outros são gente que fuma, mas os poetas escrevem e põem doses de paixão e estilo na maneira como pedem a cerveja ou o café e diferenciam-se também por ficarem horas a contemplar os próprios anéis de fumo tocando o tecto – o silêncio de tudo isso.

Homens e mulheres (poucas) construtores de textos encaminham-se rapidamente para o sítio do costume, deixando para trás os poisos de secundaríssima opção. De Setembro em diante, voltam a ocupar as mesas esses espécimes em extinção, falam uns com os outros, discutem a última antologia de um poeta já finado, relembram versos, trocam manuscritos, escrevem, lêem alto trechos em páginas essenciais, alguns levitam pequenos voos como nenhum monge budista se atreve lá nos Tibetes.

Aos novatos imberbes patos bravos criançolas, acenam com a mitologia, com a mística mesmo. Que o Herberto Helder é capaz de aparecer um dia destes, que o gajo já está melhor (subentende-se uma doença) e que está aí não tarda, recuperando o estatuto de habituê, juntando-se na novíssima rentrée. Ora, eu cá nunca o vi e tenho algum receio que tão grande prestidigitador ocupe uma mesa vizinha da minha – respeito muito os poetas vulcânicos.

E enquanto os Seres vão sendo no alto cimo da Calçada, o Solar dos Galegos vai existindo junto ao largo do Cauteleiro. Largo simpático de Lisboa, costas com costas com o Chiado, e roçando o saudoso Bairro Alto dos amantes. Talvez por não serem assim tantos os poetas-de-Lisboa-que-ainda-usam-os-Cafés (e nem todos são para aqui chamados, há os que preferem outras paisagens mais sofisticadas) este, é dos pequenos; o aspecto vulgar mas a televisão desligada; o negócio é familiar, como tantos outros em Lisboa; os filhos apoiam os pais e depois sentam-se a uma mesa na aturada empresa dos deveres da escola. Não raro, os poetas ajudam...

Comments:
"A manhã está tão triste
que os poetas românticos de Lisboa
morreram todos com certeza

Santos
Mártires
e Heróis

Que mau tempo estará a fazer no Porto?
Manhã triste, pela certa.

Oxalá que os poetas românticos do Porto
sejam compreensivos a pontos de deixarem
uma nesgazinha de cemitério florido
que é para os poetas românticos de Lisboa não terem de
recorrer à vala comum"


poema TODOS POR UM de m. cesariny
 
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