sábado, outubro 29, 2005

 

Último

Este blogue acaba aqui. Não muito feliz na recta final. Reconhece um erro nos últimos metros do percurso (erro já dilitado) Acontece. Aprende-se. Beijos.

quinta-feira, outubro 27, 2005

 

Menção horrorosa


 

Da higiene

Eu cá, a lavar, é antes de. Como dizia o Rui Zink (salvo erro) “eu não lavo as mãos depois de fazer xixi porque a minha pilinha está limpa!”

quarta-feira, outubro 26, 2005

 

Menção horrorosa


 

Dois textos presidenciais

Primeiro e Segundo

 

Menção horrorosa


segunda-feira, outubro 24, 2005

 

Drama instantâneo*

Um texto sobre o amor-paixão, essa invenção burguesa (mas que sei eu). Começa com um automóvel em grande velocidade por uma estrada de campo. Para os lados da lezíria, crê o narrador. Um condutor de pé a fundo na tábua, no auto-rádio cresce em altos decibéis o requiem de Mozart. É claro que nestas condições: um rapazola apaixonado, música erudita e desrespeito pelas leis do código da estrada, o acidente é o desfecho. E, de certa maneira, é bem-feito!

Ama-se com dentes incisivos e molares. O amor é louco. Fizeram-no assim os românticos (mas que sei eu). Um amor-paixão que quer e não quer ser amor despido, em frente ao outro, com tempo para chorar o morrer dentro e fora de nós. Eu queria uma mulher que estivesse numa companhia de dança e fosse um golpe comunista dos antigos**… Não deixa de ser lindo! É quase parvo.

Usamos então os automóveis da nossa abundância, aceleramos contra a morte, como cavaleiros de peito feito. Gritamos como heróis de nós próprios É FARTAR VILANAGEM! e entramos num arrozal à velocidade de um requiem de Mozart no volume máximo. No fundo, são as mulheres muralhas. Ou nós, mitificando-as, querendo levá-las para a cama para quebrar o mito que não se quebra. Odiamos nos intervalos desse amor. Amor urbano o nosso, pela rama, alimentado a anti-depressivos. Um amor de cinema no Monumental, de imperial à porta do Bar. Somos quase estúpidos.

Silêncio sombras saliva coxas cabelo desgrenhado em cascata na almofada de linho. Silêncio que se estende no velho colchão das multidões solitário. Já não se fazem colchões solidários, sexo de encontro à madrugada. Lágrimas a sério, não lágrimas de filme encenadas. Que bons actores temos sido nessa nossa forma de amar mulheres e homens de encontro à madrugada. Ama-se para dentro. Inventamos tudo. Lutamos contra a nossa solidão com uma fome canibal. Inventamos o nosso amor no alheamento do outro. É só a nossa cabeça. O amor é mentira.

Mas o que interessa, ainda assim, é um anel de pechisbeque na boca dos dois amantes. Uma falésia e um segredo. Eu amo-te. Eu amo-te. Os dois amantes secretos casando em segredo algures no litoral. O ritual de uma aliança debaixo da língua, o mar, o mar ali em baixo, ele e ela sem ninguém saber. E depois um filho emerge sabe-se lá de onde. Uma morte ao contrário: o nascer. Rega-se o filho como a uma planta – deixá-lo crescer em fotossínteses complicadas de vida. Um amor criando gente nas barrigas.

Nascemos e amamos e morremos. Fodemos e falhamos. Fodemos pior, falhamos melhor com a idade. Conduzimos deliciosamente mal quando apaixonados.

*António Chaparreiro dix it
**Da NOVA ASMÁTICA PORTUGUESA de Nuno Moura

 

Água

Quando queria ser pintor visitei um artista plástico que morava na minha cidade. Pedi-lhe que me mostrasse o seu atelier e as suas pinturas. Apareci com um amigo que aspirava ao mesmo e que partilhava comigo o gosto pelo folclore dos artistas, das técnicas, e que, tal como eu, vibrava com os aspectos mais estúpidos como o cheiro da tinta, a desarrumação inspiradora do local onde se trabalha, tudo o que para nós parecia essencial na arte.

Por isso, não foi outra coisa o que ali encontrámos. Havia papéis por cima de tubos de tinta amachucados, pincéis fora do sítio, sujos, gastos, um grande cavalete de metal cheio de tinta, uma aparelhagem com pilhas de cd’s de jazz e música erudita, livros de pintura, de pintores, uns mortos, uns vivos, outros apenas surrealistas. Depois, o cheiro a terebintina, diluentes, óleos, telas começadas, por acabar, cores, formas, gestos (era essencialmente um artista formalista, retiniano, preocupando a beleza). Essa visita ao atelier do pintor da minha cidade iria ser determinante para aquilo que hoje procuro.

Eu procuro tão só escrever o livro que estava entre os tubos de tinta do pintor. Tinha uma capa vermelha e umas letras amarelas na capa, devia ter umas quatrocentas páginas de um conteúdo que não pude (nem quis) ler. Não li sequer o título. Tenho vindo, isso sim, a sonhar com o que lá dentro pudesse estar. Apreendi a energia que esse livro emitia ali na terebintina e no meio dos desenhos e das colagens. E terão passado quantos anos depois disso? Eu ia a começar a adolescência, tive tempo de esquecer o livro, tempo de o não escrever ainda. Lembro-me do livro cada vez melhor. À pintura, arrumei-a dividida pelos armários das casas onde tenho vivido. Nunca consegui pintar com óleos.

Escolhia o acrílico por causa do elemento ÁGUA.

domingo, outubro 23, 2005

 

Menção horrorosa


 

Ditos de adolescer

És linda nas horas

 

Menção horrorosa


 

Joana d’AR.CO

eu vi Joana d’AR.CO
acender o fogo no princípio da noite
ateando as páginas da lista telefónica
queimando toda a rede fixa da zona de Carcavelos

usava paciência pinhas e lenha seca
era a padeira fazendo as brasas cheirando a cinza
cantava alto canções muito brasileiras
era a mulata fazendo o pão

e eu com todos os meus soldados mortos
tinha a batalha perdida
a armada vencida os navios em chamas

Joana d’AR.CO com sal nos braços cabelos de fumo
sorria e chamava-me para o tapete
onde comemos saladas e coisas marinhas

dançámos depois todas as mornas de Cabo-Verde

 

Menção horrorosa


sábado, outubro 22, 2005

 

Comunicação aos sócios seguido de Tom Zé

.
.
.
Queria só explicar aqui que às quatro horas da madrugada quando não estou a dormir é porque há fortes possibilidades de estar francamente bêbado. Isso explica o facto de alguns de vocês receberem a essa hora (!) mensagens minhas no telemóvel. Hoje dói-me levemente (como quem chama por mim) a cabeça. E recebi algumas mensagens de pessoas perguntando, ah e tal, então que raio de mensagem foi aquela? As minhas sinceras desculpas. A sério.
.
.
(Solidão)

(Tom Zé)

Solidão
que poeira leve
solidão
olhe a casa é sua
o telefo...
e no meu descompasso
o riso dela

Na vida quem perdeu o telhado
em troca recebe as estrelas
pra rimar até se afogar
e de Soluço em Soluço esperar
O Sol que Sobe na cama
e acende o lençol
Só lhe chamando
Solicitando
Sólidão
que poeira leve...

Se ela nascesse rainha
se o mundo pudesse agüentar
os pobres ela pisaria
e os ricos iria humilhar.
Milhares de guerras faria
pra se deleitar
por isso eu prefiro
chorar sozinho.

solidão
que poeira leve
solidão
olhe a casa é sua
o telefone tocou, foi engano
solidão
que poeira leve
solidão
olhe a casa é sua
e no meu descompasso
o riso dela

sexta-feira, outubro 21, 2005

 

Menção horrorosa


 

Un año de amor no NAPERON

UN AÑO DE AMOR - LUZ CASAL

Lo nuestro se acabó
Y te arrepentirás, de haberlo puesto fin
A un año de amor
Si ahora tú te vas
Pronto descubrirás
Que los dias son eternos y vacíos sin mi

Y de noche, y de noche
Por no sentirte solo
Recordarás, nuestros días felices
Recordarás, el sabor de mis besos
Y entenderás, en un solo momento
Que significa
Un año de amor

Te has parado a pensar
Lo que sucederá
Todo lo que perdemos
Y lo que sufrirás
Si ahora tú te vas
No recuperarás
Los momentos felices que te hice vivir

Y de noche, y de noche
Por no sentirte solo
Recordarás, nuestros días felices
Recordarás, el sabor de mis besos
Y entenderás, en un solo momento
Que significa
Un año de amor
Y entenderás en un solo momento que significa
Un año de amor

 

Águas internacionais

Os barcos ao fundo. Não. Os barcos ao longe na costa. Não era tanto o fim do dia, mas o terno começo de noite, no tempo exacto da plena infância, depois de um dia de mergulhos nas ondas mansas da praia. Ali, já depois de um banho de chuveiro e de um creme après soleil, depois de vestir em cima da pele quente um fato de treino dos antigos, em algodão, e de ter calçado umas sapatilhas brancas de atacadores, talvez mesmo depois de jantar, podia ver dali os navios ao longe na costa, pequenos insignificantes vultos movendo-se lentos na linha de horizonte. A marinha mercante, os navios de longo curso, a tristeza de saber aquelas embarcações em alto mar, toda essa tristeza que não era bem tristeza, que era uma felicidade tremenda, descontrolada, de me sentir vivo mas pressentir que parte de mim ia naqueles navios que entardeciam, de saber pela primeira vez dizer, sentindo, longe. Aquilo de ver navios em parque de campismo português serviu-me como primeira noção de longitude, de saudade, de tristeza feliz. E de ansiedade. A noite a cair, a minha mão na rede que delimitava o parque, o corpo partido da praia, o meu peso no chão de cimento com areia que o vento trouxe das dunas, e aqueles navios passando, sendo pela noite engolidos (a mesma noite que me engolia a mim) percorrendo rotas com nomes de estrelas, exóticos, nomes ininteligíveis, distantes. Uma sabedoria inacessível que irmanava esses navios com as estrelas. Terei respirado fundo na direcção desses navios que seguiam líquidas rotas. Ter-me-ei envergonhado dos poucos metros de firme chão que percorri.

quinta-feira, outubro 20, 2005

 

Um livro na calha?

Ramón Gómez de la Serna terá nascido em Madrid. Mas foi morrer em Buenos Aires, num exílio que durou cerca de trinta anos. Escreveu centenas de livros e é dos maiores autores de língua castelhana. Um grande escritor da história da literatura universal.

Mas depois de ter morrido lá na Argentina, na cidade com o nome mais bonito do mundo, ainda quer intervir na produção literária actual, já de si saturada. O seu próximo projecto é uma história contada a crianças, a jovens e a adultos. Três livros, a mesma história, mas adaptada às diferentes faixas etárias.

É claro que precisa de ajuda. Está morto e nenhuma editora respeitável admite publicar o romance de um morto. Julgo que Ramon não estará a ter facilidades em encontrar o vivo que servirá de veículo (mero veículo) ao génio literário de de la Serna. Nem tão pouco se prevê que alguém do mundo editorial (excluiu ele a hipótese de publicação, por preconceito, nas pequenas editoras de cariz espírita sempre alheias aos grandes movimentos literários da humanidade) possa pegar de bom grado num texto tão… espacial. Parece-me também que o autor não está disposto a (conseguindo publicar) servir-se do facto de ser um autor morto para com isso vender mais e somar reedições e traduções no estrangeiro. Sendo que o estrangeiro neste caso é todo o mundo dos vivos, dezenas de anos passados de se ter finado. Ele quer simplesmente que os livros saiam, normalmente.

Ora, estava eu dormindo no éter de um sétimo andar na Avenida 5 de Outubro em Lisboa quando começo, em pleno sonho, em conversações com Ramón Gómez de la Serna. Na altura, devo dizer, só tinha lido uma tradução de um livro do escritor e não lhe reconheci a fronha pelo que para mim estava apenas de fronte de um alguém qualquer que se dizia escritor e que falava numa mistura de castelhano e português espanholado (Ramon terá vivido uns tempos no Estoril, o que lhe permitiu aventurar-se no nosso idioma). Aquele homem ter-se-á dirigido ao meu ser em Teta, profundamente. Fê-lo porque precisava de alguém que escrevesse mas que não estivesse já dominado pelo ego inchado de orgulho, próprio do artista. É claro que para isso já era um pouco tarde. Sou hoje alguém que se assume como artista, tenho um grande ego, por vezes consigo até esconder o enorme défice de auto-estima e de confiança.

Ramón mostrou as obras. Eram três livros acabadíssimos, numa bela impressão, edições perfeitas com um design apelativo, daqueles livros que apetece ler. Folheei os três, prestando mais atenção ao que era para adultos. Li (talvez nos sonhos possamos ler em todas as línguas) a primeira página: era muito bom! E quando acordei, vinha já o sol entrando pelas frestas dos estores, apenas me lembrava do título. Como não sabia quem era o escritor, também não sabia (não perguntem como nem porquê) em que língua vinha esse título e o que queria dizer. A primeira coisa que fiz foi dizê-lo alto, acordando assim a companhia. De seguida, levantei-me de rompante e corri para a mesa da sala para escrever num papel isto

BONCHA CON TEMBLEQUES

No início, e porque me lembrava vagamente do começo do livro, o título fazia sentido. Mas no momento em que o escrevi, já não percebia nada e achei-me ludibriado pelas coisas do sonho. A claridade que invadia esse sétimo andar tinha o peso esmagador da realidade. Aquilo era tão só a maior estupidez que alguma vez escrevi. Acaso existisse tradução para aquilo, acaso existisse mesmo um significado concreto para BONCHA CON TEMBLEQUES seria assustador.

E existia, leitor. Existia e existe tradução para algo tão estranho como isto. Devo dizer que não domino o castelhano, fui poucas vezes a Espanha, nenhuma à América Latina, não compro o El País. A única coisa de que posso ser acusado é de gostar de ler Jorge Luis Borges. Fui saber e: Boncha é uma palavra que quer dizer, pelo menos na América Latina, um género de Rumba que é uma dança cubana em compasso binário e ritmo complexo, ou também uma pândega, festa, folia, ou baile provocante, ou encantamento. Tembleques: vem do verbo temblar, ou seja tremer, abanar, tremelicar, diria mesmo que é um espasmar orgasmático…

Enfim, uma dança marota, ébria, uma trip, a puta da loucura, o diabo no corpo… já estou excitado. Ramón, se me estás a ouvir, eu aceito a empresa!

quarta-feira, outubro 19, 2005

 

Menção horrorosa


 

O portátil

Num dia de chuva num café pequeno em Budapeste um rapaz abre um portátil cinzento sobre a mesa. Ninguém estaria em condições de saber o que se passava no plasma desse ecrã – ele sentou-se de frente para nós, as costas para uma parede próxima, sorria entre o quase empolado e o com razões para isso. De repente, se havia algum tipo de explosão multicolor naquele café pequeno onde tínhamos ido parar, esse rebentamento tinha duas origens: vinha da moça mais-que-linda que ali servia e que nos falava num Inglês magiar cheio de graça, e vinha também daquele cinzento (cor!) do portátil solene sobre a mesa redonda do café pequeno em Peste. Que maquinava esse jovem? Tinha colado na parte de trás do ecrã (que ficava de frente para nós) a frase a preto em fundo branco:

ACTIVISM IS DEAD

Aquilo era ao mesmo tempo uma incitação irónica e inteligente e uma maneira inteligente e irónica de incitar. Alguma coisa se passava naquela mesa. O rapaz tinha um sorriso que (arrisco dizer) era de quem alinhava em subversões de ordem possivelmente pirotécnica. Mas o quê? E qual a dimensão? Nunca soube, nem nunca saberei. Ficou-me desse activismo morto-vivo propagandeado em café de capital húngara, uma vontade de também eu começar por algum lado. Comecei pela bela desse café. E iniciei o escrever.

terça-feira, outubro 18, 2005

 

Menção horrorosa


 

Appels à participation : pour tous les médias artistiques

Société Réaliste et Le Ministère de l’Architecture

vêm propor o seguinte...

 

Menção horrorosa


 

As tias mortas

Tirando as da escola, a minha infância não teve janelas de guilhotina. Mas assomavam delas vultos negros, despenteados, brincos prateados pendendo de lóbulos flácidos. Eram as tias no escuro das casas, nas certas horas em que por motivos insondáveis se retiravam. As famílias têm-nas pontilhando como galhos partidos a árvore genealógica, pois muitas são das solteiras, que envelhecem entre escarros e padres-curas, adormecendo nas novelas. As minhas, muitas, já se finaram e foram a enterrar em tardes de chuva, escoltadas por uma pequena multidão de sobrinhos. Não sei se foram com os pechisbeques mas levaram vestidas as blusas com que iam de tupperware aos casamentos. As minhas tias mortas. Lembro as minhas tias e consigo cheirar em esforços de relembrança essa água-de-colónia das rebajas badajoenses com que ensopavam os colarinhos. Nunca ninguém deu por ter passado por elas um dia a juventude, por ter havido antes sorriso belo onde depois cresceu bigode frondoso.

E havia, no ecossistema que as sustentava, cozinhas cheirando a xarope de cenoura, roseiras torneando pátios, limoeiros onde à sombra nos entretínhamos entre risinhos e sussurros de vida alheia. Tudo isso enquanto nos recantos místicos do quintal ia crescendo o musgo dos presépios. Ao mesmo tempo que eram velhas e solteiras, algumas tias ainda as conheci com a mãe doente, de quem tomavam conta como quem toma conta de um filho que não souberam ter, e nesse trabalho dedicado às mães, doentes de dez tromboses, esmeravam-se em virtuosismos no manejar de penicos e clisteres.

Nunca nos deixavam usar a retrete principal que era para as visitas importantes que não tinham. Usávamos em vez dessa uma latrina de azulejos brancos onde mal cabiam as nossas cólicas. Também nunca nos sentávamos na sala de jantar que era quarto de dormir de alguns retratos com pó. Sobre os retratos, esses e todos os outros, não é exagero dizer que qualquer um no poder dessas tias, quase que ganhava jeito de relíquia e o retratado (mesmo sendo vivo) subia ao estatuto de santo, irmanando tetricamente com as imagens dos santinhos oficiais das suas predilecções.

As velhas tias desse eterno estado novo eram gente sozinha que vivia a sua solidão entre velas e suspiros. Adormeciam com o ouvido nos programas nocturnos da Rádio, daqueles em que se dá voz a outros solitários – senhoras carpindo a sua enorme insónia em apaixonados mas monocórdicos telefonemas. Havia também as missas com lugar marcado, a reformazinha todo o santo mês, a caça obstinada ao produto mais barato do mercado, a lágrima em certo capítulo do romance, o pensar alto próprio dos aluados. Havia, acima de tudo, umas mãos que encarquilhavam pelos dedos, e uns olhos de uma beleza esquecida – as tias sofriam de uma solidão tão grande como a sua virgindade branco-pérola.

Arroz de feijoca nos almoços com as tias, Coca-Cola desgasificada empurrando as pataniscas, papo-secos de ontem, peros debulhados com facas de lâmina comida pelo tempo redondo e oxido. O cantante mal sintonizado em cima do frigorifico. A cozinha por onde entrava um gato sujo e estremunhado de dormir na terra dos canteiros, os olhos remelosos de gato sem nome esperando o que sobrasse das pataniscas na entrada da cozinha. A mesa redonda onde nos sentávamos à volta esperando que a tia nos trouxesse o comer em doses frugais mas repetidas. Comíamos o comer embalados por um locutor de província e por fados de faca e alguidar.

Morria-se sempre mais no fim dos almoços. As tias promoviam as sestas. Despromoviam as correrias no quintal, os puxares de rabo de gato, as subidas aos limoeiros, o espreitar para dentro do poço (onde se escondiam as húmidas tágides). As tias esmoíam o almoço encostadas a gordas almofadas, recostadas na vida. Ressonavam durante largos momentos de braços cruzados como quem acomoda o corpo à eternidade. As tias diziam, quando eu morrer, diziam, quando eu morrer vais lembrar-te, vais ver que a tua tia tinha razão, e diziam também, a tua tia já não dura muitos anos. Viviam as tias na eminência da morte e tinham já tudo acertado com os seus santos – horas e horas de ajoelhada conversação.

Donas de pudicas bruxarias, as tias sabiam rezas profanas e ancestrais com fuminhos de carqueja e jasmim e gestos ciciados junto ao enfermo. Dores na virilha, enxaquecas, afrontamentos, dores de amor, dores de corno, as tias faziam o ritual debaixo do telheiro para não serem vistas pelas vizinhas. As estações do ano: tardes de calor modorrentas, manhãs de chuva outonais, noites frias de Inverno, em todas elas a recomendação de não vás lá para fora por mor do calor da chuva do frio. As tias aprenderam a voar com as andorinhas de louça penduradas na cal dos seus muros.

Naperons por cima das cómodas, as contas do terço penduradas num dos pináculos da cama, caixas de remédios auto-prescritos em cima da mesa-de-cabeceira, pomadas dentro das gavetas, arcas com roupa roída pela traça e pela memória, a nossa senhora florescente de Fátima ao pé do espelho tisne, as persianas deixando frestas para a luz triste e perfumada das laranjeiras, uma mulher sentada numa ponta da cama, as mãos brancas sobre o colo, uma respiração animada por um choro profundo insondável, a média penumbra do quarto, um rosto de olhar no tecto e no silêncio, um rosto ganhando expressão e consciência, uma mulher sozinha no mundo, de cabelos brancos, de testa enrugada, de ombros caídos derrotados, um vestido de primavera com flores pequenas estampadas, um fio dourado na tensão do pescoço, uma golfada de lágrimas inesperadas, um corpo que se levanta para morrer no tapete.

Visito as casas agora desabitadas, pilhadas por uma pequena multidão de sobrinhos. Entro no Verão do quintal, onde hiberna um limoeiro seco. Abro a torneira do contador da água e desenrolo a mangueira. Rego as árvores do quintal sem pensar em nada. Mato a sede das árvores da tia morta. Não vejo o gato, não há rosas nos canteiros, descobre-se o laranja dos tijolos por baixo da cal esmorecida, não sei das andorinhas de louça. Componho a corda na roldana do poço, faço descer o balde até tocar a água, o balde enche, subo-o pesando na velha roldana que guincha a cada puxar dos braços. Apoio o balde no cimento e ajoelho-me. As mãos entram na água fria e é como uma redenção, levo a água à cara e ao cabelo, sorrindo tanto. As tágides.

segunda-feira, outubro 17, 2005

 

Menção horrorosa


 

Guanabara kaput

Consta-me que terá fechado o primeiro Raro Café de Lisboa – o Guanabara. Segundo a fonte, já valeu a pena aquela Série, ou todo o blogue. Estou, no momento em que escrevo, num outro Raro de Lisboa, de seu nome Bar Venezuela (Coelho da Rocha 91 B). Aqui, a conversa entre o dono João e os habituais, é o recente aperto da fiscalização da Câmara que tem vindo a apontar dezenas de erros no alto-a-baixo do Café. É normal, é um Café antigo e à maneira, claro que devia ter duas casas de banho e um armazém como deve de ser para as bebidas e outros produtos em stock… sei lá o quê mais. O que vai acontecer em breve, adivinho, é este fantástico Venezuela ir também ele pelos ares. É pena. Por causa das questões higiénicas, pedi logo uma imperial e uma sandes de queijo. Faço aqui um apelo: a quem gostar de poemas sumários de tascas de Lisboa e de passar uma boa tarde imperialista, a vir dizer adeus a estes Raríssimos que eu vou referindo aqui e a outros que pontilham por essa cidade e em que eu, lamentavelmente, poderei nunca vir a entrar (que a minha vida não é só isto).

domingo, outubro 16, 2005

 

Memórias do litigioso

Tudo começa e tudo acaba em Setembro. As escolhas sobre o efeito do equinócio da melancolia. Os discos antigos cheirando a amores perdidos e que ainda doem – apertos tonais no coração triste. Toda a vida entre as vindimas e o restolho. Pode beber-se cacau quente em cafés de cidade distante, Heidelberg por exemplo, preparada para a neve, onde os gritos das amantes voavam como facas para o meu peito*. Ou pode simplesmente fazer-se de conta que ficção não é realidade. E assim já não foi preciso viagem para norte em busca de Invernos que doessem, Invernos que matassem.

Agora já passaram alguns anos sobre o dia em que se perdeu os gatos, e moradia rés de amor-chão, com duas janelas para rua inclinada e de sentido único, ascendente. Salvou-se os livros, alguma música em caixotes de papelão. O último olhar dos bichanos como se percebessem tudo. Aliança judaico-cristã metida na maçaneta design da porta dos engomados. A cabeça rapada no chuveiro da véspera. Perder assim dois gatos de assentada, um homem não aguenta desafeiçoar-se.

Mas eles não se divorciaram, abriram falência. Ela ficou enevoando de lágrimas o saguão, enquanto a gata ia movendo a tigela da água com a minúcia e o asseio dos que sabem usar da temperança. O gato mandava-lhe olhares de cima da mobília. Homem e mulher agora como dois proletários da felicidade no desemprego e com os salários em atraso, alimentando também eles as estatísticas.

As economias coevas proporcionam cada vez menos a segurança da classe trabalhadora. Resta cada vez mais o trabalho temporário, precário, a insegurança. A tirania do lucro impondo na sua fúria uma atribulada invernia. E foi assim, entre metáforas economicistas que eles foram seguindo por caminhos novos na cidade.

Outorgaram tempo depois na 1ª Conservatória do Registo Civil de Lisboa com vista para o Marquês de Pombal e edifícios em volta. Eram onze horas e trinta minutos e o sol de Setembro crescia suave cintilando no trânsito que circundava a rotunda. E não havia nulidades, excepções dilatórias ou questões prévias de que cumprisse oficiosamente conhecer e que obstassem à apreciação da causa. E ambos os cônjuges persistiam na intenção de se separar como constava do requerimento inicial.

Salvos os livros e perdidos os gatos, não havia bens a partilhar. Foi só harmonizar com o deposto nos diplomas e artigos e decretos do Código Outonal.


*Do poema Peso de Outono de Fernando Assis Pacheco

quinta-feira, outubro 13, 2005

 

Contributo para o blogue O mundo de Claudia

Tens aqui a resposta. Ainda não vi, mas posso dizer que acompanhei o processo de pelo menos duas artistas/estudantes da maumaus...

 

Amanhã, no Museu do Chiado (entrada livre)

LUMPEN TRIO + ANA BEZELGA

DOUBLING OR NOTHING

14 Outubro, Sexta-feira, 19h.
http://www.museudochiado-ipmuseus.pt/
Sala Polivalente. Entrada livre e gratuita.

Doubling or Nothing é um projecto dos Lumpen Trio (António Chaparreiro, Jorge Serigado e Miguel Sá) com a colaboração de Ana Bezelga no vídeo. O projecto assenta na sincronização visual e sonora de tempos e percepções diferentes, introduzindo na improvisação uma memória e uma história como elementos estruturantes sujeitos à reavaliação crítica do refazer. O refazer faz-se fazer. A uma gravação sonora e visual de um concerto sem público, sucederá a apresentação pública de outro concerto, na qual o trio executará uma improvisação musical sobre o resultado do primeiro concerto, e em que a gravação visual desse primeiro concerto será projectada sobre os músicos.O Lumpen Trio é uma formação que se dedica à improvisação livre entendida como gestão de acasos e criação de acidentes onde o esquecimento, a emoção, a intensidade, aliados a um espírito lúdico e despreocupado, têm uma função estruturante e dinamizadora. Criado em 2001 por António Chaparreiro, Jorge Serigado e Ernesto Rodrigues, tem mantido uma actividade vocacionada essencialmente para actuações ao vivo e cujos registos têm sido particularmente bem recebidos pela crítica. A entrada de Miguel Sá para o lugar de Ernesto Rodrigues, para além de alterar a sonoridade global do Lumpen Trio, veio também estimular e renovar as suas propostas estéticas e musicais mantendo no entanto algumas das suas premissas iniciais cujo eco podemos encontrar nas palavras de Rui Eduardo Paes: "uma música extremamente frágil, uma música que obriga os seus ouvintes a debruçarem-se sobre ela, mas que, paradoxo dos paradoxos, tem a intensidade, a densidade, o vigor, a exuberância e o excesso do grindcore e do death metal".

 

Gosto muito de estar vivo com

O João Pacheco na vizinhança
O Chaparreiro, com o seu veneno feito antídoto (mai lo Rock and Roll)
O Gustavo, segurando comigo esta (deliciosa) cruz
O João Manso, na versão amansada (pela Joana)
A Vicente e a sua “estatística” flutuante (Alright!)
A Xana das bochechas
A Joaninha Dilão, moça boa velhaquita como as cobras
A Susana-ai-meu-deus-esta-tusa
O Moura com seu jogo de anca
A Margarida, a única pessoa a quem autorizei que me partisse o coração
A Patrícia banho de chuva às quatro da manhã

(continua...)

sexta-feira, outubro 07, 2005

 

No Jamaica

Nuno Moura disse-me:

Nietzsche disse
Não acredito num Deus que não dance.
Todos os dias.


Enquanto isso
Uma delas tentava subornar o dj

This page is powered by Blogger. Isn't yours?