segunda-feira, outubro 24, 2005

 

Drama instantâneo*

Um texto sobre o amor-paixão, essa invenção burguesa (mas que sei eu). Começa com um automóvel em grande velocidade por uma estrada de campo. Para os lados da lezíria, crê o narrador. Um condutor de pé a fundo na tábua, no auto-rádio cresce em altos decibéis o requiem de Mozart. É claro que nestas condições: um rapazola apaixonado, música erudita e desrespeito pelas leis do código da estrada, o acidente é o desfecho. E, de certa maneira, é bem-feito!

Ama-se com dentes incisivos e molares. O amor é louco. Fizeram-no assim os românticos (mas que sei eu). Um amor-paixão que quer e não quer ser amor despido, em frente ao outro, com tempo para chorar o morrer dentro e fora de nós. Eu queria uma mulher que estivesse numa companhia de dança e fosse um golpe comunista dos antigos**… Não deixa de ser lindo! É quase parvo.

Usamos então os automóveis da nossa abundância, aceleramos contra a morte, como cavaleiros de peito feito. Gritamos como heróis de nós próprios É FARTAR VILANAGEM! e entramos num arrozal à velocidade de um requiem de Mozart no volume máximo. No fundo, são as mulheres muralhas. Ou nós, mitificando-as, querendo levá-las para a cama para quebrar o mito que não se quebra. Odiamos nos intervalos desse amor. Amor urbano o nosso, pela rama, alimentado a anti-depressivos. Um amor de cinema no Monumental, de imperial à porta do Bar. Somos quase estúpidos.

Silêncio sombras saliva coxas cabelo desgrenhado em cascata na almofada de linho. Silêncio que se estende no velho colchão das multidões solitário. Já não se fazem colchões solidários, sexo de encontro à madrugada. Lágrimas a sério, não lágrimas de filme encenadas. Que bons actores temos sido nessa nossa forma de amar mulheres e homens de encontro à madrugada. Ama-se para dentro. Inventamos tudo. Lutamos contra a nossa solidão com uma fome canibal. Inventamos o nosso amor no alheamento do outro. É só a nossa cabeça. O amor é mentira.

Mas o que interessa, ainda assim, é um anel de pechisbeque na boca dos dois amantes. Uma falésia e um segredo. Eu amo-te. Eu amo-te. Os dois amantes secretos casando em segredo algures no litoral. O ritual de uma aliança debaixo da língua, o mar, o mar ali em baixo, ele e ela sem ninguém saber. E depois um filho emerge sabe-se lá de onde. Uma morte ao contrário: o nascer. Rega-se o filho como a uma planta – deixá-lo crescer em fotossínteses complicadas de vida. Um amor criando gente nas barrigas.

Nascemos e amamos e morremos. Fodemos e falhamos. Fodemos pior, falhamos melhor com a idade. Conduzimos deliciosamente mal quando apaixonados.

*António Chaparreiro dix it
**Da NOVA ASMÁTICA PORTUGUESA de Nuno Moura

Comments:
(...)
2. Dies irae
Dies irae, dies illa solvet saeclum in favilla, teste David cum Sybilla.
Quantus tremor est futurus, quando judex est venturus, cuncta stricte
discussurus.
3. Tuba mirum
Tuba mirum spargens sonum per sepulchra regionum, coget omnes ante thronum.
Mors stupebit et natura, cum resurget creatura, judicanti responsura.
Liber scriptus proferetur, in quo totum continetur, unde mundus judicetur.
Judex ergo cum sedebit, quidquid latet apparebit, nil inultum remanebit.
Quid sum miser tunc dicturus? quem patronum rogaturus, cum vix justus
sit securus?
(...)
Lacrymosa dies illa, qua resurget ex favilla judicandus homo reus.
Huic ergo parce Deus, pie Jesu Domine, dona eis requiem! Amen!
(...)
quam olim
Abrahae promisisti
(...)
 
Ora onde é que eu já li sobre isto?!...acidente, Requiem de Mozart...lololol...há pessoas para tudo!

Ps1- O amor existe?!

PS2- Aconselho o Credo, de Vivaldi!Mto intenso tb...
 
A Kylie Minogue acredita no "love at first sight".
 
Só se for ela...!!!
 
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