domingo, outubro 16, 2005

 

Memórias do litigioso

Tudo começa e tudo acaba em Setembro. As escolhas sobre o efeito do equinócio da melancolia. Os discos antigos cheirando a amores perdidos e que ainda doem – apertos tonais no coração triste. Toda a vida entre as vindimas e o restolho. Pode beber-se cacau quente em cafés de cidade distante, Heidelberg por exemplo, preparada para a neve, onde os gritos das amantes voavam como facas para o meu peito*. Ou pode simplesmente fazer-se de conta que ficção não é realidade. E assim já não foi preciso viagem para norte em busca de Invernos que doessem, Invernos que matassem.

Agora já passaram alguns anos sobre o dia em que se perdeu os gatos, e moradia rés de amor-chão, com duas janelas para rua inclinada e de sentido único, ascendente. Salvou-se os livros, alguma música em caixotes de papelão. O último olhar dos bichanos como se percebessem tudo. Aliança judaico-cristã metida na maçaneta design da porta dos engomados. A cabeça rapada no chuveiro da véspera. Perder assim dois gatos de assentada, um homem não aguenta desafeiçoar-se.

Mas eles não se divorciaram, abriram falência. Ela ficou enevoando de lágrimas o saguão, enquanto a gata ia movendo a tigela da água com a minúcia e o asseio dos que sabem usar da temperança. O gato mandava-lhe olhares de cima da mobília. Homem e mulher agora como dois proletários da felicidade no desemprego e com os salários em atraso, alimentando também eles as estatísticas.

As economias coevas proporcionam cada vez menos a segurança da classe trabalhadora. Resta cada vez mais o trabalho temporário, precário, a insegurança. A tirania do lucro impondo na sua fúria uma atribulada invernia. E foi assim, entre metáforas economicistas que eles foram seguindo por caminhos novos na cidade.

Outorgaram tempo depois na 1ª Conservatória do Registo Civil de Lisboa com vista para o Marquês de Pombal e edifícios em volta. Eram onze horas e trinta minutos e o sol de Setembro crescia suave cintilando no trânsito que circundava a rotunda. E não havia nulidades, excepções dilatórias ou questões prévias de que cumprisse oficiosamente conhecer e que obstassem à apreciação da causa. E ambos os cônjuges persistiam na intenção de se separar como constava do requerimento inicial.

Salvos os livros e perdidos os gatos, não havia bens a partilhar. Foi só harmonizar com o deposto nos diplomas e artigos e decretos do Código Outonal.


*Do poema Peso de Outono de Fernando Assis Pacheco

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