quinta-feira, outubro 20, 2005

 

Um livro na calha?

Ramón Gómez de la Serna terá nascido em Madrid. Mas foi morrer em Buenos Aires, num exílio que durou cerca de trinta anos. Escreveu centenas de livros e é dos maiores autores de língua castelhana. Um grande escritor da história da literatura universal.

Mas depois de ter morrido lá na Argentina, na cidade com o nome mais bonito do mundo, ainda quer intervir na produção literária actual, já de si saturada. O seu próximo projecto é uma história contada a crianças, a jovens e a adultos. Três livros, a mesma história, mas adaptada às diferentes faixas etárias.

É claro que precisa de ajuda. Está morto e nenhuma editora respeitável admite publicar o romance de um morto. Julgo que Ramon não estará a ter facilidades em encontrar o vivo que servirá de veículo (mero veículo) ao génio literário de de la Serna. Nem tão pouco se prevê que alguém do mundo editorial (excluiu ele a hipótese de publicação, por preconceito, nas pequenas editoras de cariz espírita sempre alheias aos grandes movimentos literários da humanidade) possa pegar de bom grado num texto tão… espacial. Parece-me também que o autor não está disposto a (conseguindo publicar) servir-se do facto de ser um autor morto para com isso vender mais e somar reedições e traduções no estrangeiro. Sendo que o estrangeiro neste caso é todo o mundo dos vivos, dezenas de anos passados de se ter finado. Ele quer simplesmente que os livros saiam, normalmente.

Ora, estava eu dormindo no éter de um sétimo andar na Avenida 5 de Outubro em Lisboa quando começo, em pleno sonho, em conversações com Ramón Gómez de la Serna. Na altura, devo dizer, só tinha lido uma tradução de um livro do escritor e não lhe reconheci a fronha pelo que para mim estava apenas de fronte de um alguém qualquer que se dizia escritor e que falava numa mistura de castelhano e português espanholado (Ramon terá vivido uns tempos no Estoril, o que lhe permitiu aventurar-se no nosso idioma). Aquele homem ter-se-á dirigido ao meu ser em Teta, profundamente. Fê-lo porque precisava de alguém que escrevesse mas que não estivesse já dominado pelo ego inchado de orgulho, próprio do artista. É claro que para isso já era um pouco tarde. Sou hoje alguém que se assume como artista, tenho um grande ego, por vezes consigo até esconder o enorme défice de auto-estima e de confiança.

Ramón mostrou as obras. Eram três livros acabadíssimos, numa bela impressão, edições perfeitas com um design apelativo, daqueles livros que apetece ler. Folheei os três, prestando mais atenção ao que era para adultos. Li (talvez nos sonhos possamos ler em todas as línguas) a primeira página: era muito bom! E quando acordei, vinha já o sol entrando pelas frestas dos estores, apenas me lembrava do título. Como não sabia quem era o escritor, também não sabia (não perguntem como nem porquê) em que língua vinha esse título e o que queria dizer. A primeira coisa que fiz foi dizê-lo alto, acordando assim a companhia. De seguida, levantei-me de rompante e corri para a mesa da sala para escrever num papel isto

BONCHA CON TEMBLEQUES

No início, e porque me lembrava vagamente do começo do livro, o título fazia sentido. Mas no momento em que o escrevi, já não percebia nada e achei-me ludibriado pelas coisas do sonho. A claridade que invadia esse sétimo andar tinha o peso esmagador da realidade. Aquilo era tão só a maior estupidez que alguma vez escrevi. Acaso existisse tradução para aquilo, acaso existisse mesmo um significado concreto para BONCHA CON TEMBLEQUES seria assustador.

E existia, leitor. Existia e existe tradução para algo tão estranho como isto. Devo dizer que não domino o castelhano, fui poucas vezes a Espanha, nenhuma à América Latina, não compro o El País. A única coisa de que posso ser acusado é de gostar de ler Jorge Luis Borges. Fui saber e: Boncha é uma palavra que quer dizer, pelo menos na América Latina, um género de Rumba que é uma dança cubana em compasso binário e ritmo complexo, ou também uma pândega, festa, folia, ou baile provocante, ou encantamento. Tembleques: vem do verbo temblar, ou seja tremer, abanar, tremelicar, diria mesmo que é um espasmar orgasmático…

Enfim, uma dança marota, ébria, uma trip, a puta da loucura, o diabo no corpo… já estou excitado. Ramón, se me estás a ouvir, eu aceito a empresa!

Comments:
que engracado! acho este teu post parecidissimo com a historia retratada no livro de Carlos Ruiz Zafon " la sombra del viento"!!
 
...ainda não li 'la sombra del viento'. mas agora fiquei curioso. de qualquer maneira, este post não é ficção. antes fosse. beijo (para Londres, suponho)
 
é um ganda post! saúde,
 
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